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A revolução de Natália

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A tenista pernambucana Natália Mayara é tímida e biamputada desde que se conhece por gente. De uma vida sobre as pernas ela garante não ter qualquer recordação. Os membros inferiores foram removidos aos 2 anos e meio, um mês depois de Natália ensaiar os primeiros passos sozinha. Já a timidez não tem qualquer relação com o acidente – ela foi atropelada por um ônibus na calçada – e a traumática cirurgia que podiam ter lhe custado a vida. “Eu ficava mais envergonha de falar com gente que não conhecia, como na hora de pedir um lanche a um atendente, do que quando percebia as pessoas reparando na minha deficiência”, afirma a atleta, cuja perna esquerda tem comprimento que vai até três dedos depois do joelho e a direita, até dois palmos abaixo do quadril.

A timidez e a busca por uma vida normal moldaram a personalidade de Natália. Na primeira vez em que apareceu nas páginas da 2016, em 2011, a então adolescente se mostrava incomodada com toda a produção fotográfica que havia sido preparada. Hoje, mais extrovertida, ela até topou ficar com o dorso nu e fazer caretas para a lente. Ainda assim, não é chegada a festas nem gosta de ficar em meio a multidões. A amputação fez o mundo se descortinar assim que a nordestina soube que podia ser uma atleta paralímpica. “Um dia, em um aeroporto, um rapaz me disse que existiam esportes para deficientes físicos e me interessei”, diz. Fez muito mais do que isso. Dentro d’água, foi campeã brasileira e mundial em categorias menores de natação até que, aos 13 anos, descobriu o tênis para cadeirantes. Com a raquete em punho, a pernambucana conheceu 17 países, aprendeu a falar espanhol e inglês, desenvolveu responsabilidade e maturidade. “Desde cedo eu viajava e me virava sozinha e me esforçava para falar a língua de outros países.”

Com 21 anos, Natália é a tenista cadeirante número 1 do Brasil e 18ª do mundo. Nunca uma brasileira havia ido tão longe nesse esporte. A atleta, que fechou 2015 com seis títulos de torneios open, escreveu o nome na lista de favoritas a medalhar nos Jogos Paralímpicos do Rio-2016 ao conquistar dois ouros (em simples e em dupla) no Parapan-Americano de Toronto-2015. “O ouro no individual foi o ápice na minha carreira. Nunca mais vou esquecer aquele momento”, diz Natália, que ostenta cinquenta medalhas em uma espécie de expositor dentro do quarto. “Foi um momento histórico, porque o Brasil nunca havia ganhado medalha de ouro no tênis em torneio de simples.” Uma reviravolta incrível sobre os conturbados anos que sucederam o fatídico 26 de setembro de 1996, dia do acidente que lhe custou as pernas.

Acompanhada da mãe, a dona de casa Rosineide Maria Azevedo de Barros, Natália estava em frente ao Hospital da Restauração, de onde havia saído minutos antes para examinar uma alergia nos pés, quando um ônibus subiu na calçada, a acertou em cheio e passou por cima de suas pernas. Depois de ver a filha ser carregada de volta ao Restauração, Rosineide ouviu dos médicos que o local não estava preparado para garantir a vida da menina. Foi Carlos Laurentino, funcionário de uma empresa de tintas e pai de Natália, quem optou por transferi-la para o Hospital Português, sem saber como arcaria com as despesas do atendimento particular.

“Vejo muitos casos de deficientes físicos criados com muita proteção e que não conseguem se destacar no esporte, que exige independência, força de vontade e agilidade”

“Vejo muitos casos de deficientes físicos criados com muita proteção e que não conseguem se destacar no esporte, que exige independência, força de vontade e agilidade”

Lá, Natália teve as pernas amputadas e passou um mês internada. “Eu saía do quarto e a levava ao setor de maternidade para ver os bebês recém-nascidos para passar o tempo”, conta a mãe, Rosineide. “Tenho flashes depois da amputação, na cama do hospital, recebendo visita no quarto”, diz a atleta, que, com a saúde estável, foi transferida para o Hospital Sarah Kubitschek, em Brasília. No local, referência em atendimento a vítimas de problemas motores e politraumatismos, ela encarou mais 95 dias de internação. E, mesmo de volta a Recife, teve de retornar ao Sarah frequentemente para dar sequência ao tratamento.

Desde o acidente até os 17 anos, Natália fez pelo menos uma cirurgia por ano, em Brasília, para diminuir o tamanho dos ossos que cresciam e poderiam atravessar a pele. A família – mãe, pai, avó, primo e tia – morava em um modesto apartamento em Recife, na humilde região de Curado IV, e precisou se mobilizar para levantar recursos e bancar as viagens. “Vendemos geladeira, mesa, um carro, fizemos rifas e pedimos passagem aérea a companhias para que minha filha pudesse ser tratada no Sarah”, conta Rosineide. Por fim, o alto custo dos repetidos deslocamentos fez com que a família, em uma decisão drástica, deixasse parentes, amigos e empregos para trás para se mudar para o centro-oeste com Natália, então com 8 anos.

Na capital federal, a pernambucana continuou sendo educada para ter uma vida independente. Os pais não colocavam limites à criança. “Meu pai, pouco tempo depois do acidente, comprou uma bicicleta para eu tentar andar, sendo que nem prótese eu tinha ainda”, diz Natália. A mãe deixava a menina brincar com as amigas de pique-esconde na rua e não colocava restrições a saídas e visitas a colegas. “Vejo muitos casos de deficientes físicos criados com muita proteção e que não conseguem se destacar no esporte porque ele exige independência, força de vontade e agilidade”, afirma a atleta. Os pais de Natália se divorciaram e, atualmente, a tenista mora com a mãe, em Brasília. As únicas adaptações em sua casa estão nas portas, um pouco mais largas, para que ela consiga entrar com a cadeira de rodas.

Natália não precisa de ajuda para quase nada. “Só não alcanço coisas que estejam muito no alto.” Dirige o próprio carro, arruma a casa, o quarto, faz a própria comida e toma banho com autonomia. “Sempre fiz tudo. Ia e voltava da escola desde pequena tocando sozinha a cadeira de rodas”, diz. Também viaja sem acompanhantes ou próteses, que considera muito pesadas. Atleta multipremiada – foi por quatro anos apontada como a melhor tenista em cadeira de rodas pela Confederação Brasileira de Tênis e levou o prêmio de melhor atleta da modalidade em 2015 pelo Comitê Paralímpico Brasileiro –, a pernambucana tem a orientação de um personal trainer, que entrou em ação há seis meses para apurar seu condicionamento físico, muitas vezes exigido ao máximo. Em um torneio na África do Sul, em 2012, a brasileira encarou uma partida de três horas de duração contra uma colombiana. “Começamos o jogo debaixo de sol e saí da quadra em um breu. Não tinha mais ninguém no clube. Tive de pegar o último transporte e ainda por cima perdi o jogo.”

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Natália também treina em quadra três vezes por semana, faz natação e irá iniciar um trabalho com psicólogos do esporte. Ela ainda recebe “salário” de R$ 5,6 mil (R$ 2,5 mil do Time São Paulo e R$ 3,1 mil do Bolsa Atleta) e tem patrocínios não remunerados de três empresas (Bodytech, Smart e Babolat). Natália está ansiosa para os Jogos Paralímpicos Rio-2016. Será a primeira vez que irá competir com a torcida a seu favor. Não só isso. Está confiante na conquista de uma medalha no torneio. “Recentemente, joguei com a 4ª do mundo e fui para o tie-break. Com a 8ª, fui para o terceiro set. E já ganhei da número 10”, explica. “Estou chegando perto. Estar no pódio da Paralimpíada é um sonho possível”, afirma.

No tênis para cadeirantes, as medidas da quadra, das bolas e das raquetes são iguais às usadas por atletas sem deficiência. A única diferença é que a bolinha pode pingar duas vezes. “A mão com que você segura a raquete é também a que toca a cadeira, que é mais leve e ágil do que as tradicionais e tem as rodas inclinadas, como as usadas nos jogos de basquete, para facilitar os deslocamentos”, explica Natália. Forte – ela levanta 18 kg de cada lado no supino – e com 54 kg, a tenista brasileira se destaca pelo jogo agressivo, a potência dos golpes e pela agilidade nos deslocamentos em quadra. “Gosto de jogar batendo mais do fundo de quadra. Meu forehand (movimento com a palma da mão virada para frente) de direita é bem potente.” Acima da média com a raquete em punho, a pernambucana é uma jovem como outras tantas quando dá folga ao instrumento com o qual ganha a vida. Viciada em tecnologia e redes sociais, Natália gosta de sair para visitar o Lago Paranoá e ostenta uma palavra tatuada no antebraço direito que diz muito sobre ela: Blessed (abençoada, em inglês).

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