Paralímpicos

Alan Fonteles: a máquina feroz

“Vou ter que viajar hoje à tarde, não sei se vou poder falar com você.” Era a manhã da primeira segunda-feira de fevereiro e aquele seria o quarto “bolo” consecutivo que Alan Fonteles, 21 anos, daria na equipe da 2016. Naquele dia, a expectativa era maior, já que o atleta acabava de voltar de “férias forçadas” de dois meses – uma providência tomada pelo Comitê Paralímpico Brasileiro (CPB) justamente para que a estrela colocasse a cabeça no lugar e passasse a cumprir seus compromissos. Desde o Mundial de Atletismo de Lyon, na França, em julho do ano passado, Alan encontra sérias dificuldades para comparecer aos eventos para os quais é convidado – palestras, lançamentos de livros, entrevistas – e aos treinos. Passou semanas intercalando presenças e ausências no Centro de Treinamento da BM&F Bovespa, em São Caetano do Sul (SP), até que fosse liberado temporariamente das obrigações. Nesse período de folga, não foram raras as vezes em que seu próprio treinador, Amauri Veríssimo, não sabia onde ele estava.

Hotéis-fazenda da costa nordeste do Brasil. Foi para lá que ele foi, como contou quando finalmente conseguimos convencê-lo a nos atender entre a sessão de fisioterapia que estava prestes a terminar e o horário do voo para Brasília, onde teria uma reunião com representantes do CPB. E Alan falou para valer. Disse que se sentia sobrecarregado com a rotina de treinos e compromissos sociais, que se tornou muito intensa desde a vitória que marcou sua ascensão, o ouro nos 200 metros na Paraolimpíada de Londres, em 2012. Isso teria gerado o cansaço, seguido pelo desânimo para frequentar os treinamentos. Ele reclama também da falta de compreensão de todos, especialmente dos profissionais da imprensa. “Soube que estavam falando que eu fiquei arrogante depois de ganhar o ouro”, afirma. “As pessoas falam sem nem saber o que está acontecendo, acham que atleta não tem vida pessoal.”

Justificar ausências é algo que Alan só começou a aprender quando chegou a São Caetano do Sul, em janeiro de 2012, para treinar com a equipe de Amauri Veríssimo. Na época, ele tinha apenas 19 anos – “um menino, né?”, como repete várias vezes o treinador. Compreensivo, Veríssimo não punia as faltas, mas insistia que o atleta pelo menos comunicasse quando não fosse aparecer. Talvez tenha havido compreensão demais. Alan abusou do recurso quando começou a namorar a atual esposa, Lorrany. Para visitar a alagoana, o atleta costumava pedir folgas às sextas-feiras ou durante toda a semana. Nesse tempo, dedicava-se apenas ao treinamento muscular em Maceió.

 VENCEDOR: Alan supera Oscar Pistorius nos 200 m na Olimpíada de Londres, em 2012. O brasileiro já teve o sul-africano como ídolo, mas se decepcionou com a arrogância do atleta

VENCEDOR: Alan supera Oscar Pistorius nos 200 m na Olimpíada de Londres, em 2012. O brasileiro já teve
o sul-africano como ídolo, mas se decepcionou com a arrogância do atleta

Não é de estranhar que o relacionamento com Lorrany tenha preocupado a equipe técnica no início. As viagens constantes eram um problema para a maior estrela do esporte paralímpico brasileiro e um atleta com uma coleção de feitos extraordinários. Mas o casal não tardou a resolver a questão da distância. Casaram-se em dezembro do ano passado, pouco mais de um ano depois do primeiro encontro. O atleta protagonizou um pedido de casamento televisionado ao vivo para todo o mundo logo após a prova dos 200 metros no Mundial de Lyon. Foi só uma amostra de seu romantismo.“Ele sempre chega em casa com flores e cestas de café da manhã, é muito carinhoso”, diz Lorrany. Alan é reservado, não gosta de falar da vida particular e diz apenas que está aprendendo a ser um bom marido. Os dois dividem as tarefas na residência alugada em um condomínio próximo ao centro de treinamento, em São Caetano. Ele poupa a mulher da tarefa que ela acha mais penosa: lavar a louça. “A mãe obrigava a Lorrany a fazer isso todo dia”, diz Alan. “Ela detesta, e eu acabo fazendo essa parte.”

Antes de casar, Alan sentia diariamente o peso da solidão. Nos dois primeiros meses após sair de Belém (PA) e mudar para São Paulo – período em que morou em um hotel – pensou em desistir diversas vezes. “Treinar a semana inteira e depois passar o domingo sozinho era o mais difícil”, diz. Ele visitava a família apenas uma vez por bimestre. Hoje, é com a esposa que o atleta passa todo o tempo livre. O programa predileto é ir ao cinema. Pegam até três sessões seguidas. Comédia, aventura, suspense, qualquer estilo serve. Em ocasiões especiais, os dois gostam de frequentar restaurantes sofisticados. Nesses momentos, o ciúme de Alan é testado. Com um sorriso tímido, olhos no chão enquanto fala, ele confessa que perceber homens mais velhos observando Lorrany o tira do sério.

Antes do casamento, quando dividia apartamento com o também atleta Yohansson Nascimento, costumava promover pequenos churrascos para amigos. Essa é, para ele, a melhor forma de comemorar alguma coisa. Quando voltou vitorioso da Paraolimpíada de Londres, desfilou em carro aberto em Belém durante horas e, quando chegou em casa, atravessou a madrugada comendo carne com a família. Álcool não faz parte do seu cardápio rotineiro, mas um copo ou dois de uísque durante as férias até passam. A pequena autoconcessão já rendeu problemas. Em dezembro de 2012, ele estava de folga em Belém e voltava de uma festa na companhia de quatro amigos quando bateu o carro em um ônibus. Ninguém se machucou gravemente, mas Alan admitiu que tinha bebido uísque com energético.

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Os holofotes se viraram para Alan não apenas pelo ouro em Londres, mas também por ele ter vencido o favorito absoluto, o sul-africano Oscar Pistorius, estrela mundial das provas de velocidade paralímpicas. Aos 20 anos, o novo campeão saiu da prova, ligou para os pais, fez o teste antidoping, conversou pela internet com os amigos do Brasil e foi dormir já de madrugada, curtindo o gosto da vitória. Acordou no dia seguinte como uma celebridade envolta em polêmica. Entrevistas sucessivas ocuparam todo o dia do atleta, mas em vez de exaltar a conquista, a imprensa questionava sua validade frente às declarações dadas por Pistorius. O oponente havia colocado dúvidas sobre o desempenho do brasileiro, acusando-o de ter uma prótese maior do que o permitido, o que o teria beneficiado na corrida. A prótese do brasileiro de fato era maior do que a usada no duelo anterior com Pistorius, em 2011. O aumento, porém, foi fruto de um exame de raio X perfeitamente legal. Todos os atletas paraolímpicos passam por medições antes das competições. Só são permitidas próteses até o limite máximo de altura que suas pernas alcançariam. O brasileiro poderia chegar a 1,85 m, e sua prótese naquele campeonato o deixava com 1,82 m. A confusão teve dois resultados.

O primeiro foi a decepção de Alan, que até então tinha o sul-africano como ídolo. “Dentro das pistas, continuo admirando o Pistorius, mas ele não é mais o meu ídolo”, afirma. “Não porque ganhei dele, mas por causa da forma como ele reagiu à derrota.” A desmistificação de Pistorius continuou pouco mais de seis meses depois, quando o sul-africano foi acusado de assassinar a namorada, a modelo Reeva Steenkamp, dentro de casa.

 NOVO PAULISTA: Alan e seu treinador, Amauri Veríssimo, tentam consertar uma prótese no Centro de Treinamento da BM&F Bovespa, em São Caetano do Sul (SP). Mudança da estrela paraolímpica para São Paulo coincide com melhoria nos resultados

NOVO PAULISTA: Alan e seu treinador, Amauri Veríssimo, tentam consertar uma prótese no Centro de Treinamento da BM&F Bovespa, em São Caetano do Sul (SP). Mudança da estrela paralímpica para São Paulo coincide com melhoria nos resultados

Pistorius admitiu ter disparado contra a companheira, mas afirmou que o fez por tê-la confundido com um ladrão. Alan estava dormindo quando recebeu a ligação de um integrante da equipe técnica contando sobre o crime. “Aí pensei: acabou mesmo.” A segunda consequência da polêmica das próteses e do assédio da imprensa em Londres foi o desequilíbrio de Alan. O brasileiro diz que todo o barulho em torno da validade de sua vitória o prejudicou nas provas seguintes. Alan era um dos favoritos ao ouro nos 100 m e também tinha boas chances de vitória nos 400 m. Acabou em sétimo e quarto lugares, respectivamente. Falar do episódio faz sumir a expressão adolescente do atleta. “Em cada competição em que estive, aprendi alguma coisa e melhorei para a próxima”, diz.

Ele parece ter aprendido mesmo. No Mundial de Atletismo, um ano depois da Paraolimpíada de Londres, apesar do assédio e do êxtase da primeira vitória, conseguiu se manter focado. Voltou para casa com três medalhas de ouro: nos 100, 200 e 400 metros. Essa última teve um gosto especial, já que significou a vitória sobre aquele que Alan diz ser seu único desafeto entre os atletas estrangeiros, David Prince. A rivalidade começou quando o americano enviou para Alan, via rede social, uma mensagem acusando-o de ter – adivinhem – fraudado o tamanho das próteses na corrida em que ele venceu Pistorius. Prince liderava o ranking nos 400 m rasos, mas só conseguiu o bronze no Mundial. O brasileiro voltou da França com o ouro e um doce sabor de vingança cumprida.

Prontos para comemorar a vitória com ele estavam a família e os bons amigos de infância, a quem Alan se mantém fiel. Um dos mais próximos é Mauro Henrique Rodrigues, que o acompanhou desde os primeiros passos no atletismo. Quando crianças, brincavam pelas ruas sem asfalto de Ananindeua, na região metropolitana de Belém. Pipa, futebol, bicicleta: as pernas amputadas nunca impediram o paraense de realizar nenhuma atividade. Com próteses convencionais, sem nenhuma adaptação aos esportes, ele descobria uma maneira de fazer o que queria – inclinava um pouco mais o corpo, dobrava um pouco menos a perna, fazia o que fosse preciso para acompanhar os colegas. A verdade é que o garoto nunca soube o que é ter as duas pernas, já que elas foram amputadas quando ele tinha apenas 21 dias de vida. As próteses viraram parte do seu corpo. “Uma vez, eu machuquei a canela e ele me perguntou como era a dor”, lembra o amigo Mauro. “Eu disse que daria um soco no braço dele para mostrar e a gente começou a brincar de luta, como sempre fazíamos.”

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Nascido na zona rural de Marabá (PA), Alan amputou as pernas por causa de uma septisemia (infecção generalizada). Quando recebeu a notícia da gravidade da doença, sua mãe, Cláudia, não conseguiu nem acompanhá-lo a Belém – a mulher humilde, que sempre morou na roça, não tinha nenhum documento de identidade e, portanto, não podia entrar em um avião. O filho seguiu com a avó para a capital. Os pais foram de ônibus logo em seguida. Depois disso, a família nunca mais voltou para o interior. Venderam o sítio e compraram uma pequena casa em Ananindeua. Cláudia e o filho passaram a correr diariamente para sucessivas cirurgias de raspagem e sessões de fisioterapia. Enquanto isso, o pai estudava à noite e pegava todo tipo de bico durante o dia para sustentar a família. Levou quase um ano e meio até conseguir um emprego fixo, em uma empresa de serviços gerais.

A vida melhorou à medida que Alan se tornava um atleta de verdade. Aos 8 anos de idade, o garoto pediu para participar de um projeto social do governo paraense. Queria correr. Sua maior inspiração era o velocista Robson Caetano. Alan foi recebido pela treinadora Suzete Montalvão, que aceitou o desafio de prepará-lo, apesar de nunca ter trabalhado com atletas paralímpicos. Desde cedo, seu talento nas pistas foi notado por todos e, em 2003, ganhou os primeiros patrocinadores. Três anos depois, o triatleta Rivaldo Martins se comoveu ao ver o bom desempenho de Alan, mesmo com próteses totalmente inadequadas ao esporte – que os colegas de treino chamavam de “pernas de pau”. Martins, com a ajuda do Comitê Paralímpico e de instituições internacionais, o ajudou a conseguir próteses para o atletismo – com formato de “J”, feitas de fibra de carbono. Hoje, ele tem pelo menos oito dessas, que usa só para correr. No restante do tempo, está sempre com as próteses convencionais.

“Soube que estavam falando que eu fiquei arrogante depois de ganhar o ouro. As pessoas falam sem nem saber o que está acontecendo, acham que atleta não tem vida pessoal”

“Soube que estavam falando que eu fiquei arrogante depois de ganhar o ouro. As pessoas falam sem nem saber o que está acontecendo, acham que atleta não tem vida pessoal”

Enquanto conquistava o mundo do esporte, Alan levava também uma vida de adolescente comum. Era o “pegador do colégio”, como define o amigo Mauro. O atleta se diverte ao lembrar da preocupação das freiras que cuidavam da escola onde estudava. Segundo ele, as religiosas chegaram a ligar para sua mãe várias vezes para relatar o mau comportamento do filho. “Eu namorava muito mesmo, às vezes com mais de uma ao mesmo tempo.” Os tempos de pegador acabaram. Hoje, garante, é homem de uma mulher só. Mas a empolgação de Alan ao falar do que o espera no futuro ainda é aquela de um adolescente cheio de sonhos. “Acho que meu diferencial sempre foi a força de vontade”, diz. E as vontades são muitas. Uma delas é comprar uma casa para viver com a mulher em São Caetano do Sul – o atleta já presenteou os pais com um imóvel e um carro. Alan também pretende competir no Troféu Brasil de Atletismo, em outubro, com atletas sem deficiência. Ainda não sabe se tentará o mesmo na Olimpíada, repetindo o feito do ex-ídolo Oscar Pistorius. A principal meta, porém, é conquistar o ouro na Paraolimpíada de 2016, no Rio de Janeiro. Para isso, precisará perder os quatro quilos adquiridos durante as férias de dois meses. Por enquanto, nada de treinos de velocidade. O foco é na resistência física e muscular para evitar lesões. Lá do norte do País, o melhor amigo, Mauro, torce. “Desejo para ele o de sempre: que corra cada vez mais rápido.”