Atletismo

Corrida contra o tempo

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Toda vez que o avião sobrevoava o pedaço de terra onde a família Santos vivia, no sertão da Paraíba, o primogênito do casal Paulo e Rita dava a largada dentro de casa e saía desembestado. Petrucio Ferreira dos Santos, criança à época, admirava o que chama de passarinho de ferro e cresceu com o sonho de um dia viajar dentro de um. O tempo foi passando até que, aos 16 anos, o paraibano passou a mão no telefone e
ligou do aeroporto de João Pessoa para a casa da família, em São José do Brejo do Cruz, distante cerca de 500 km de onde se encontrava. “Mãe, tô entrando aqui no passarinho de ferro e vou até São Paulo”, disse ele, que embarcaria para a disputa da etapa nacional de atletismo dos Jogos Escolares Paraolímpicos. Na competição, Petrucio começou a construir sua história no esporte. “Quem é aquele magrinho cabeçudo lá?”, perguntaram, na capital paulista, os que se impressionaram com os 11s40 que Petrucio levou para correr – e vencer – os 100 m rasos na competição. Detalhe: com tênis emprestado.

Menos de três anos após aquela que foi a primeira grande realização de sua vida – a viagem de avião, no caso –, o jovem e franzino paraibano correu para a consagração definitiva no Rio. Em sua estreia nos Jogos Paraolímpicos, Petrucio se tornou, aos 19 anos, o homem mais veloz do mundo entre os portadores de deficiência ao correr os 100 m (na classe T47, para amputados de braço), a prova mais nobre do atletismo, em 10s57. Com esse tempo, o nordestino que aos dois anos de idade teve o antebraço esquerdo triturado por um moedor de capim e, consequentemente, amputado, estabeleceu o recorde mundial. No pódio, chorou com a medalha de ouro no peito. Seis dias depois do debute, ele encerraria a sua participação na Paraolimpíada com duas pratas – no revezamento 4×100 m (T42-47) e nos 400 m (T45-46-47). “É, tô demonstrando que o cabeçudo de corpinho franzino aqui tem velocidade”, diz ele, dono de 66,4 quilos distribuídos em 1,69 metro de altura.

Na Paraolimpíada, Petrucio ficou a apenas 21 centésimos do melhor brasileiro na Olimpíada

Na Paraolimpíada, Petrucio ficou a apenas 21 centésimos do melhor brasileiro na Olimpíada

Fanático por de futebol, Petrucio foi pinçado para o atletismo em um campeonato amador de futsal, no final de 2013. Com apenas dois anos e meio de prática, o para-atleta passou a constar na galeria dos que se diferenciam dos mortais ao brilhar nos Jogos Paraolímpicos. “É um fora da curva, assim como Usain Bolt”, afirma Nakaya Katsuhico, treinador de velocidade do Clube de Atletismo BM&FBovespa e que, na Confederação Brasileira de Atletismo (CBAt), responde pela seleção feminina. “Ele me parece acima da média. Deveria ser submetido a avaliações científicas mais apuradas para saber como, biomecanicamente falando, o corpo dele consegue compensar tão bem a deficiência física nessa modalidade”, afirma Turíbio Leite Barros Neto, professor adjunto de medicina esportiva da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e fisiologista do Instituto Vita.

Para o recordista brasileiro dos 100 m Róbson Caetano, “é possível que Petrucio se torne o homem mais rápido do Brasil

Para o recordista brasileiro dos 100 m Róbson Caetano, “é possível que Petrucio se torne o homem mais rápido do Brasil

Chama a atenção dos que acompanharam a jornada de Petrucio durante a Paraolimpíada o fato de que a marca alcançada por ele (10s57) nos 100 m está muito próxima dos 10s36 registrados por Vítor Hugo dos Santos, o velocista que representou o Brasil na versão olímpica do evento, semanas antes. Estaríamos caminhando, então, para que o velocista paraibano, um portador de deficiência física, se torne o homem mais rápido do Brasil? “Longe de mim apostar no impossível”, diz o professor de educação física Pedro de Almeida Pereira, treinador de Petrucio. “Por outro lado, faz tempo que os velocistas olímpicos brasileiros não evoluem como o esperado. Se permanecerem nessa toada, os paraolímpicos vão se aproximar cada vez mais.”

De fato, faz 28 anos que o recorde brasileiro dos 100 m (10s) não é superado. O dono da marca, Robson Caetano, é categórico: “É possível que Petrucio se torne o homem mais rápido do Brasil”. Para ele, o para- atleta tem a seu favor o pouco tempo de prática e o enorme espaço para evoluir no atletismo. O paraibano ainda está afinando sua técnica. Possui, por exemplo, uma escoliose acentuada e se encontra em um processo para alinhar melhor o corpo durante a corrida. E trabalha, também, para atingir níveis ideais de fortalecimento da musculatura. “A força reativa de Petrucio, fundamental na aceleração e velocidade máxima, é extraordinária”, diz o treinador Pedro Pereira. “Mas trabalhei apenas 20% dela durante a preparação para a Paraolimpíada porque o grau de estresse que ela provoca poderia lesioná-lo.”

Até onde ele pode chegar?

Compare o tempo de Petrucio dos Santos nos 100 m da Paraolimpíada com outras marcas importantes

10s57
Recorde mundial de Petrucio na categoria T47, para atletas com braço amputado

10s36
Tempo registrado por Vítor Hugo dos Santos, o velocista que representou o Brasil na Olimpíada do Rio

10s  
Recorde brasileiro de Robson Caetano

9s81  
Tempo que valeu a Usain Bolt a medalha de ouro nos Jogos do Rio

9s58  
Recorde mundial de Usain Bolt

A falta do antebraço do corredor nordestino e os prejuízos no equilíbrio e no sincronismo que ela produz durante a corrida fazem com que Nakaya, da CBAt, discorde dos que apostam em Petrucio como o mais rápido entre os brasileiros. “Ele pode evoluir, mas não acredito que chegue a ser o número 1 do Brasil”, diz. “Há seis atletas na categoria juvenil, na mesma idade que a de Petrucio, com marcas melhores do que o recorde dele.” O treinador da CBAt duvida que Petrucio teria o mesmo desempenho se encarasse uma competição entre olímpicos com tempos melhores que o dele. O rendimento do atleta que corre em situação de desigualdade, argumenta Nakaya, tende a ser pior. “A pressão faz com que o competidor empregue mais força do que deveria, o que prejudica a desenvoltura normal durante a prova”, diz. “O Vítor Hugo tinha corrido para 10s11 no Troféu Brasil, mas na Olimpíada, entre os melhores do mundo, fez o trajeto em 10s36.”

Alheio a essa discussão, Petrucio já cravou: espera um dia correr com velocistas convencionais, feito que o sul-africano Oscar Pistorius, ex-recordista dos 100 m, já experimentou. Para-atletas que competem com o auxílio de próteses fazendo o papel de pernas, como ocorria com o sul- africano (que hoje cumpre prisão de seis anos por assassinar a namorada), teriam, de acordo com o fisiologista Turíbio, da Unifesp, mais chances de superar indivíduos sem deficiências. “A evolução da tecnologia empregada nas próteses pode proporcionar isso mais facilmente”, afirma. “Mas não vejo a falta do antebraço do Petrucio interferindo tanto na velocidade dele. De repente, o Petrucio será o mais rápido corredor de 100 m do Brasil.”

Entre leis de incentivo e verba de patrocinadores, o para-atleta recebe atualmente R$ 17,8 mil. Seus pais, ao contrário de Petrucio, que mora em uma quitinete na capital João Pessoa, seguem em São José do Brejo do Cruz, cidade com 1.780 habitantes. Moram em uma casa comprada pelo filho que, seis vezes por semana, pega dois ônibus por dia para treinar na Universidade Federal de João Pessoa e usa o mesmo transporte para ir à academia e ao fisioterapeuta. Na noite anterior à final dos 100 m que o colocou para sempre em outro patamar no esporte, Petrucio deitou na cama repetindo o mantra de que deveria se preocupar em dar o melhor que podia durante a prova. Se assim agisse, já se consideraria vitorioso, independentemente da posição em que cruzasse a linha de chegada. Hoje em dia, o menino que guardava as roupas em caixa de papelão exibe suas três medalhas paraolímpicas penduradas ao lado da cama, bem perto do armário onde estão seus pertences – inclusive os que o vestem. Cumpriu, ainda, o prometido e entregou para a mãe o mascote da Paraolimpíada com o cabelo dourado. E já está treinando novamente, mas por causa de outra demanda. “Ando rabiscando meu nome no papel para ver se sai um autógrafo.”

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