Reportagem

As várias lutas de um campeão mundial

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O mundo parecia vazio de sonhos para o adolescente do bairro de São Miguel, em Justinópolis, região metropolitana de Belo Horizonte. Embora o sorriso tímido seja uma das marcas registradas de Maicon Andrade, a vida não era nada amistosa para ele. Caçula de uma família de oito irmãos e com pais separados, Maicon teve que largar os estudos para ajudar a mãe e os irmãos a pagar as contas da casa. De segunda a sexta, trabalhava como servente de pedreiro. Nos finais de semana, fazia bicos como garçom. A dura labuta rendia algo como R$ 700 por mês. Em meados de 2007, uma descoberta começou a mudar o seu futuro: o tae kwon do, a milenar arte marcial de origem coreana. Mesmo com a rotina de treinos, Maicon não pôde deixar o serviço pesado. “Para continuar no tae kwon do, nós tínhamos que trabalhar, até mesmo para comprar os equipamentos e faixas”, diz Juninho, como é conhecido Ronaldo de Fátima Oliveira Jr, melhor amigo de infância e que participou do mesmo projeto social que revelou Maicon para o esporte.

O destino do futuro medalhista olímpico começou a mudar em 2012. Foi nesse ano que surgiram as primeiras viagens para competir. As despesas eram pagas por Alan Revertis, seu primeiro treinador, que desde cedo enxergou potencial no garoto. Por essa razão, o obrigava a ficar até mais tarde nos treinos, mesmo depois de os outros terem ido embora. “A maneira como ele executava os golpes, principalmente os chutes, chamava a atenção”, diz Alan.  Uma dessas competições tirou Maicon do anonimato. Representando a cidade de Jundiaí, o mineiro, mesmo sem treinar como atleta de alto rendimento, se classificou para a final da segunda divisão dos Jogos Regionais de Bauru.

Quem é Maicon Andrade

Antes de ser um atleta de alto rendimento, foi servente de pedreiro e garçom. Conheça o perfil do lutador:

Idade: 23 anos

Origem: Justinópolis, região metropolitana de Minas Gerais

Peso: 87 kg

Centro de treinamento: São Caetano do Sul, São Paulo

Patrocínio: antes da Olimpíada, contava com o apoio da Prefeitura de São Caetano do Sul e de associações da região. A partir de julho, se tornou atleta da Força Aérea Brasileira

Categoria de luta: acima de 80 kg

Início da carreira profissional: 2013

Principais conquistas: bronze nos Jogos do Rio e bronze na Universíade de 2015,
em Gwangju, na Coreia do Sul

No mesmo campeonato, Reginaldo dos Santos, treinador da equipe Two Brothers, uma academia de São Caetano do Sul que atualmente tem 23 dos 33 atletas da seleção brasileira de tae kwon do, acompanhava seus alunos que disputavam a primeira divisão do torneio. No intervalo entre as competições, Reginaldo parou para assistir à final da segunda divisão. Na luta, Maicon aplicou um de seus famosos golpes, o mondolio, chute de 360 graus que joga uma perna à frente da outra, num giro completo. Naquele dia, Maicon não venceu o torneio. Mas a imagem do chute não saiu da cabeça de Reginaldo. “Fiquei impressionado”, diz o técnico. “Ao lado de meu irmão e sócio, passamos a procurá-lo para que ele fizesse parte do nosso time.”

A saga para transformar Maicon no primeiro brasileiro medalhista olímpico de tae kwon do foi árdua. Depois de um ano procurando o menino do chute perfeito, os técnicos de São Caetano conseguiram encontrar Alan Revertis, o primeiro professor de Maicon. Desse encontro, surgiu a primeira dificuldade. Embora Maicon quisesse se tornar um atleta de alto rendimento, sua mãe, dona Vitória, então com 60 anos, não queria ver o caçula longe de casa – e viagens são indispensáveis em qualquer modalidade esportiva. A ligação do atleta com a família, principalmente com a mãe, é visceral. No dia em que Reginaldo conheceu Maicon, o atleta perdeu uma de suas lutas porque estava com o emocional abalado. Antes de disputar a semifinal, ele descobriu que dona Vitória havia passado mal. “Conversei muito com o Maicon e pedi para que ele se concentrasse na luta, mas a cabeça estava em Justinópolis”, afirma Alan Revertis. Para esta reportagem, Maicon não quis dar entrevista. Alegou estar preocupado com mãe, que sofre com problemas de saúde.

Depois de incutir na cabeça dos familiares que viria mesmo para São Paulo treinar, Maicon teve que convencer a si próprio de que seria um atleta de alto rendimento. Por exercer outras funções e ter o esporte como segundo plano, ele não estava habituado com o ritmo dos treinos, que exigia, às vezes, mais de seis horas diárias de dedicação. Além disso, teria que abrir mão das visitas constantes à família, que ficara em Minas Gerais. Além dos treinos de tae kwon do, Maicon também precisou incluir na rotina a ginástica, que é realizada em conjunto com os preparadores do campeão olímpico Arthur Zanetti, no centro de treinamento AGITH, também em São Caetano do Sul. Do dia para a noite, ele se viu como um atleta profissional, longe de casa, dividindo um quarto numa república de esportistas no ABC paulista. “A mudança não foi simples”, diz Clayton dos Santos, sócio da Two Brothers Academia e atual treinador de Maicon. “Em duas semanas, ele quis largar tudo e voltar para Justinópolis. Cada vez que eu percebia a dúvida, pressionava mais para saber qual seria a sua decisão.”

Com a família: para superar a distância dos entes queridos, Maicon foi atendido pela mesma psicóloga do ginasta Arthur Zanetti

Com a família: para superar a distância dos entes queridos, Maicon foi atendido pela mesma psicóloga do ginasta Arthur Zanetti

Para sorte do esporte brasileiro, Maicon escolheu o tae kwon do. Foram necessários apenas seis meses para que ele garantisse uma vaga de titular na seleção, o que dá a dimensão do tamanho de seu talento. O alto desempenho do atleta fez com que a academia de São Caetano contratasse a psicóloga esportiva Maria Cristina Nunes Miguel, a mesma de Arthur Zanetti. Ao contrário do que é feito no tradicional trabalho clínico, a psicologia esportiva exige metas e treina o foco do atleta, para que ele não perca a concentração mesmo diante de adversidades. “Maicon é um lutador nato”, diz Maria Cristina. “Ele não se intimida para a luta, o que ajudou muito no desenvolvimento psicológico.” De bem com a vida, voltou a estudar. Com apoio dos treinadores, concluiu o ensino médio e se matriculou em um curso de geografia de uma universidade
de São Caetano do Sul.

Em 2014, já na seleção brasileira, Maicon se deparou com mais uma dificuldade que quase o fez desistir de ser atleta olímpico. Quando se preparava para mais um ciclo de competições regionais, foi informado que a mãe estava com câncer de mama. Sem pensar duas vezes, pegou o ônibus na noite em que a notícia foi confirmada e avisou os técnicos que não voltaria mais. Ao chegar a Justinópolis, deparou-se com uma das cenas mais chocantes de sua vida. “Entrar no hospital e ver minha mãe careca me fez desabar”, disse o lutador em entrevista ao programa Esporte Espetacular, da Globo. “Mas ela não me deixou desistir. Pediu que eu continuasse investindo no meu sonho, que eu conseguiria ser um medalhista olímpico. Prometi que ganharia uma medalha para ela.” Pela promessa, ele voltou a São Paulo para dar continuidade ao objetivo principal: fazer história na Rio-2016.

Se o atleta acreditava que os obstáculos mais difíceis a serem superados na carreira estavam ligados a problemas pessoais, ele se enganou. De família humilde e sem condições de arcar com os investimentos que um lutador de alto rendimento precisa, Maicon recebia um auxílio da prefeitura de São Caetano do Sul, por ser esportista da Two Brothers Team. O dinheiro, porém, era todo destinado à família. “Muitas vezes nós ficávamos sabendo que ele passava por necessidades, por não ter dinheiro”, diz Clayton.

Quando entrou para a seleção brasileira, os treinadores e o próprio atleta acreditaram que a Confederação Brasileira de Tae kwon do fosse incentivá-lo e dar o suporte necessário. Isso não aconteceu. Maicon simplesmente não recebeu qualquer apoio da entidade. Embora fosse o titular da seleção, os treinadores acusam a Confederação de deixá-lo de fora de grandes competições, como o Pan-americano de 2014 e o Mundial de 2015. A dificuldade fez com que o centro de treinamento em São Caetano, em parceria com uma associação de pais de alunos, fizessem eventos beneficentes, como bingos, para arrecadar dinheiro para que ele pudesse competir no exterior e passar uma temporada de quase dois meses no Irã. “Não recebemos apoio nenhum da Confederação”, diz o técnico Reginaldo. “Todo o investimento no Maicon veio de doações.”

“Entrar no hospital e ver minha mãe doente me fez desabar” 

Depois de denunciar a falta de apoio, o treinador de Maicon foi suspenso da Olimpíada. Resultado: o atleta competiu no Rio com um técnico que não conhecia

Depois de denunciar a falta de apoio, o treinador de Maicon foi suspenso da Olimpíada. Resultado: o atleta competiu no Rio com um técnico que não conhecia

Após conseguir a classificação para os Jogos do Rio, o atleta passou a contar com o apoio do Comitê Olímpico Brasileiro, que o ajudou a voltar ao Irã em fevereiro, para retomar o intensivo de treinos antes do grande evento. Em julho, pouco antes da Olimpíada, Maicon passou a integrar as Forças Armadas Brasileira, como sargento na Força Aérea, o que deverá assegurar o suporte financeiro até os Jogos de Tóquio, em 2020. “Agora respiramos aliviados, pois sabemos que ele não passará mais dificuldades”, diz Clayton.

Maicon nunca teve paz para treinar. A certa altura, o clima ruim com a Confederação começou a prejudicar o seu desempenho. Depois de denunciar nas redes sociais a falta de suporte para o lutador, o treinador Clayton foi suspenso dos Jogos Olímpicos por indisciplina vinte dias antes da competição. A medida fez com que o atleta competisse no Rio com um técnico que não conhecia. De sua equipe original, apenas a psicóloga Maria Cristina pode acompanhá-lo durante os Jogos. Questionada pela reportagem da 2016, a Confederação Brasileira de Tae kwon do não quis se pronunciar. Em entrevista ao SportTV, Alexandre Lima, diretor técnico da entidade, afirmou que “não poderia se preocupar com um atleta. Tenho que me preocupar com a unidade da minha equipe. Não posso ter uma laranja ruim dentro do meu cesto. Tenho que preservar o meu ambiente e o meu sentido de equipe”. Detalhe: a Confederação é investigada por fraudes em licitações e desvios de recursos públicos. O escândalo fez com que o presidente da Confederação, Carlos Fernandes, fosse afastado no dia 24 de agosto.

A resposta de Maicon ao descaso da Confederação veio no dia 24 de agosto. Poucas horas depois de a seleção masculina de futebol ganhar o tão sonhado ouro para o esporte, o atleta cumpriu a promessa que fez à  mãe no hospital e garantiu uma medalha olímpica. Na luta que rendeu o pódio, ele venceu o britânico Mahama Cho, de virada, por 5 a 4, depois de entrar no último round perdendo de 3 a 1. A vitória veio mesmo sem o investimento necessário e o acompanhamento do treinador, que esteve presente em toda a preparação olímpica, inclusive nas temporadas no Irã. Se para muitos a medalha de bronze de Maicon foi inesperada, para os que acompanharam de perto a história a surpresa foi não ter conquistado o ouro.

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