Reportagem

Nasce um novo Rio

Crédito

Se você era contrário à realização da Olimpíada e da Paraolimpíada no Brasil, preste atenção a este argumento: o Rio de Janeiro se tornou uma cidade melhor depois dos Jogos. A degradada zona central agora é um lugar com museus, restaurantes e agitada vida noturna. A cidade ganhou um novo polo turístico, especialmente no entorno da outrora decadente Praça Mauá. Na área de transporte, os ganhos foram ainda mais evidentes. Além dos funcionais BRTs, o município recebeu uma nova linha de metrô, que liga Ipanema à Barra da Tijuca. Se antes o trajeto de carro levava mais de uma hora, agora é possível ir de uma ponta à outra, sobre trilhos, em 20 minutos. Também entrou em cena o bonde VLT (Veículo Leve Sobre Trilhos), que liga a rodoviária e o aeroporto Santos Dumont a estações de metrô. A cidade herdará outros benefícios. Nos últimos dias, os equipamentos olímpicos começaram a ser desmontados para servir à cidade. O 1,18 milhão de metros quadrados do Parque Olímpico será fatiado em empreendimentos residenciais e comerciais, centro de treinamento para atletas de alto rendimento e ginásios municipais.

Em termos de imagem, é incalculável o valor da Olimpíada para o Rio. Os cenários espetaculares em que foram realizadas algumas competições – canoagem e remo na Lagoa Rodrigo de Freitas, triatlo em Copacabana, ciclismo em plena Floresta da Tijuca – percorreram o mundo e reforçaram a impressão, de certa forma já difundida, de que se trata de uma cidade de beleza radiante. Olimpíadas anteriores mostraram que um evento deste porte é capaz de impulsionar o turismo durante muito tempo. Depois de Barcelona-1992, a cidade viu o número de visitantes estrangeiros aumentar 40% em 5 anos. Em Sydney, que promoveu os Jogos de 2000, o percentual chegou a 30%. Qual será o impacto no Rio, que certamente transmitiu para o mundo imagens mais impactantes? Durante os Jogos, era quase impossível encontrar um turista insatisfeito. Eles ficaram extasiados, e isso não é uma mera percepção. Segundo o Ministério do Turismo, 83% dos estrangeiros que estiveram no Rio durante o período dos Jogos pretendem voltar à cidade. Eles gastaram, de acordo com a Riotur, R$ 5 bilhões, mais dos que os R$ 4 bilhões previstos. Influenciada pelo sucesso da Olimpíada, uma recente edição da revista inglesa The Economist disse que o Brasil, agora, só tem um caminho a seguir: “para cima”.

Antes da transmissão das primeiras imagens que maravilharam o mundo na cerimônia de abertura da Olimpíada, os brasileiros iam por roteiro exatamente oposto: para baixo. Nenhuma outra cidade enfrentou tantos desafios quanto o Rio para promover uma Olimpíada e uma Paraolimpíada, o que só reforça o caráter extraordinário dos dois grandes acontecimentos. Poucas vezes eventos desse tipo enfrentaram, antes de começar, tantas trevas. Em 2016, o terrorismo promovido pelo Estado Islâmico matou milhares de pessoas, o radicalismo de líderes estúpidos como Donald Trump acentuou preconceitos, o aumento do fluxo migratório tornou o Velho Continente menos tolerante. No Brasil, a mesma escuridão alastrou-se nos últimos dois anos. A corrupção sem fim levou ao declínio econômico, a violência urbana produziu tragédias nas grandes cidades e muitas outras desgraças contemporâneas tiraram o ânimo de um País otimista por tradição. Para muita gente, tudo isso seria motivo para que não houvesse Olimpíada. Felizmente, o que houve foi exatamente o oposto. A Rio-2016 funcionou como um antídoto contra a melancolia – e não o contrário. Ninguém esperava, evidentemente, que a Olimpíada fosse capaz de resolver os problemas do mundo ou mudar a natureza das pessoas. Mas ela, e isso é inegável, fez muito para o Rio.

Não era culpa da Rio-2016 o fato de o País passar por um período tão complexo. Muita gente fez essa confusão. O Brasil tem enfrentado momentos difíceis, mas que provavelmente seriam piores sem o alento da Olimpíada. É óbvio que os erros cometidos pela organização, como entregar a Vila dos Atletas inacabada, deveriam ter sido condenados – como efetivamente foram – como é verdade que promessas são feitas para ser cumpridas (é mesmo uma tristeza o Rio não ter despoluído a Baía da Guanabara, como estava no programa de ações apresentado à sociedade). Tudo isso está errado, tudo isso é uma pena, mas não reconhecer que o Rio se tornou uma cidade melhor depois dos Jogos soa como injustiça.

istock_79873861_large

Basta dar uma espiada em fatos concretos para perceber que a cidade avançou em muitos aspectos. Um dado revelador foi divulgado por um estudo feito pela Fundação Getúlio Vargas (FGV). Segundo o levantamento, a Olimpíada trouxe um significativo legado social para os cariocas. Desde 2009, quando o Rio foi escolhido para sediar o evento, a renda per capita no município cresceu 30,3%, mais do que qualquer outra cidade brasileira. Enquanto no restante do País a desigualdade aumentou, no Rio ela sofreu uma ligeira queda. “A economia carioca, do ponto de vista das pessoas, demorou a decolar após o anúncio da sede olímpica. Uma vez embalado, o crescimento não perdeu força”, diz o economista Marcelo Neri, chefe do Centro de Políticas Sociais da FGV.

A escolha do Rio como sede também tirou do papel obras que há anos vinham sendo postergadas, como os corredores expressos de ônibus e a linha 4 do metrô, que liga a Barra da Tijuca, na Zona Oeste, à Zona Sul. Em 2009, apenas 18% dos cariocas utilizavam transporte de alta capacidade. A expectativa é que, no ano que vem, o percentual suba para 63%. Outra mudança radical desencadeada pelos Jogos é a Zona Portuária, uma região degradada da cidade que foi recuperada. Os BRTs (ônibus expressos articulados) surgidos com a Olimpíada ficaram para cidade e o metrô é agora do cidadão carioca. Outro dado interessante, mas também pouco explorado, diz respeito ao custo total da Rio-2016. Ele ficou em torno de R$ 39,1 bilhões, menos do que os R$ 45 bilhões gastos pelos ingleses para promover a Londres-2012 – e isso em uma cidade que não precisava de tantas transformações quanto o Rio. Nesse aspecto, os cariocas foram mais responsáveis que os britânicos.

A Olimpíada no Rio significou a redenção da autoestima nacional. O golpe desferido pela Alemanha na semifinal da Copa do Mundo de 2014 não só escancarou as mazelas do futebol brasileiro como feriu de morte o orgulho do País. Os 7 a 1 foram horríveis e dolorosos, mas tivemos uma chance de ouro para superar essa mácula (embora dificilmente um dia ela seja esquecida). Fora do campo esportivo, a vida dos brasileiros só piorou depois da Copa. Os 7 a 1, de certa forma, viraram a metáfora perfeita para o rosário de problemas que enfrentamos. Fomos goleados pela corrupção, pela incompetência dos políticos, pelo desemprego. Muita coisa parece ter naufragado no Brasil – e a Olimpíada não foi uma delas.

Como há muito tempo não se via, os brasileiros se encheram de esperança, felizes com a Olimpíada que foram capazes de organizar e com a oportunidade rara de desfrutar de um período luminoso de uma das cidades mais iluminadas do mundo. A Olimpíada reergueu a nossa auto estima e varreu para longe o desânimo político e econômico que paralisou a nação nos últimos dois anos. Antes de as competições começarem, os Jogos do Rio enfrentaram intenso ataque. Uma sórdida campanha internacional, motivada tanto por desinformação quanto por preconceito, dizia que o mundo estava prestes a conhecer uma tragédia. Dentro do próprio País, por motivações políticas ou pura má vontade, muita gente duvidou do sucesso do evento, como se o Brasil estivesse condenado, por alguma insondável força superior, ao fracasso eterno. No campo esportivo, deu-se algo parecido. Bastaram algumas derrotas iniciais para os pessimistas de plantão entrarem em cena, praguejando contra os atletas nacionais. Por mais que tenham tentado denegrir o Rio, por mais que os chatos e ignorantes tenham dito no começo das disputas que nossos competidores eram uma lástima, é impossível ocultar a verdade. O Rio de Janeiro fez uma grande e inesquecível Olimpíada. E uma grande e inesquecível Paraolimpíada também.

istock_97938383_large

Os dois eventos produziram heróis que encheram a nação de orgulho. No salto com vara, o paulista Thiago Braz quebrou o recorde olímpico, superou o francês que detinha a melhor marca da história e deu uma lição de humildade ao pedir que a torcida aplaudisse os rivais. No boxe, o baiano Róbson Conceição ofereceu a medalha de ouro às crianças de um projeto social onde atua como voluntário. Na ginástica, Diego Hypólito emocionou o País inteiro ao protagonizar uma das grandes reviravoltas da história do esporte brasileiro. Durante muito tempo tratado como uma piada por ter caído nas apresentações de solo nos Jogos de Pequim-2008 e Londres-2012, Diego desta vez foi preciso e ficou com a prata. “Não me sinto um campeão do esporte, mas um campeão da vida”, afirmou. Na Paraolimpíada, Daniel Dias se tornou o nadador mais vitorioso da história, com impressionantes 24 medalhas, e Petrucio Santos correu tão rápido, e mesmo sem parte do braço, que já se questiona porque ele não compete também contra os olímpicos.

O Rio deixará um legado esportivo importante para o Brasil. Tanto na Olimpíada quanto na Paraolimpíada, jamais o País havia conquistado tantas medalhas em tantas modalidades diferentes. Pela primeira vez, subimos ao pódio na canoagem – e isso nos dois grandes eventos. Depois de quase um século, o boxe e o tiro triunfaram. Na ginástica, foi a primeira que vez que dois brasileiros ocuparam duas posições do pódio. A maratona aquática faturou um inédito bronze. Obviamente, houve dor, derrota e sofrimento, mas esporte é assim. Se Fabiana Murer mais uma vez falhou no salto com vara, compensamos isso com o resultado extraordinário de Thiago Braz. Se o vôlei feminino decepcionou, as velejadoras Martine Grael e Kahena Kunze mantiveram a sina desse esporte, que sempre assegura medalhas para o Brasil. Se Alan Fonteles não acelerou como na Paraolimpíada de Londres, o atletismo paraolímpico brasileiro revelou talentos como Verônica Hipólito, que luta contra um tumor no cérebro.

A imagem ao lado, usada também na capa desta edição, foi feita pelo fotógrafo Stefano Martini durante a Rio-2016

A imagem ao lado, usada também na capa desta edição, foi feita pelo fotógrafo Stefano Martini durante a Rio-2016

Inspirar pessoas é uma das premissas de todos os Jogos. Quantas garotas não querem ser iguais a Rafaela Silva, ouro no judô? O tão falado legado diz respeito também a muitos aspectos intangíveis. A lembrança positiva de uma determinada prova é um legado. A vontade de se tornar um atleta, idem. Pelo fato de sediar os Jogos, o Brasil ganhou o direito de debutar em esportes desconhecidos por aqui, como rúgbi e badminton. A inédita exposição dessas modalidades provavelmente trará novos adeptos. A Olimpíada representou um dos acontecimentos mais marcantes da história do País. Que os legados que ela deixou inspirem os brasileiros ainda por muitos anos.