Reportagem

O começo, o meio e o fim

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O texto que você lerá a seguir foi escrito no dia 25 de setembro, numa tarde estranhamente fria para a primavera brasileira. Dali a 48 horas, na terça-feira 27, o editor de arte Pedro Matallo, um piauiense de 33 anos, que tatuou nas costas a frase “O mundo é bom porque é sortido”, vai enviar os últimos arquivos da 2016 para a gráfica. Quando ele der o comando e o material gravado em formato PDF sair de seu Mac, a redação não terá mais nada a fazer por esta revista. É uma pena. Durante 6 anos, 11 meses e 25 dias, conheci os melhores dias da minha vida de jornalista porque havia a 2016 para ser feita.

A 2016 foi uma revista diferente, mas isso não é conversa mole de jornalista. Explico: ela nasceu com data certa para acabar, algo bastante incomum. Também acho que foi a única – se você conhecer outro caso, me avise – com numeração regressiva. Começou com a edição 38 e foi diminuindo até chegar à edição 1, a que escrevo neste exato instante. Só por aí, você percebe, a 2016 não tem nada a ver com outras publicações.

Como se termina uma revista que já tinha o fim decretado há quase 7 anos? O que dizer para os leitores? O que explicar para os atletas, as estrelas destas páginas? Como colocar um ponto final em uma jornada tão feliz?

Tudo tem começo, meio e fim. Por mais óbvia que essa verdade universal possa parecer, a gente sempre acha que não vai ser assim. Que as coisas de que gostamos vão durar para sempre. Que vamos dar um jeito.

Você sabe, a vida não funciona dessa maneira. Daqui a algumas horas, a 2016 estará oficialmente acabada.

O COMEÇO

O Rio foi escolhido sede da Olimpíada no dia 2 de outubro de 2009, uma sexta-feira, em votação realizada em Copenhague, na Dinamarca. Superou Madri na final porque Tóquio e Chicago haviam caído antes. Naquele ano, o Brasil vivia um clima de euforia. O PIB do ano anterior aumentara 7,5%, o maior crescimento em 24 anos, o presidente Lula não estava enrolado com a Justiça e o mercado editorial de revistas, embora sem a pujança de outros tempos, experimentava uma bem-vinda estabilidade, apesar da ameaça crescente da internet.

A primeira edição da 2016 começaria a ser planejada naquele dia. Na mesma sexta-feira em que o Brasil conquistou o direito de organizar o maior evento do planeta, recebo de Carlos José Marques, diretor editorial da Editora Três, e de Luiz Fernando Sá, o Lula (não confundir com o ex-presidente), diretor editorial adjunto, a missão de criar uma revista ligada aos temas olímpicos e à cidade do Rio de Janeiro. A ideia havia partido de Caco Alzugaray, presidente executivo da Editora Três. Detalhe: eu deveria apresentar uma proposta na segunda-feira, três dias depois. A equipe, me disseram, deveria ser “enxuta”. Além de mim, que seria o diretor de redação, um editor de texto, um editor de arte, um editor de fotografia – e só. Os outros seriam colaboradores, os frilas, palavra que alguém do jornalismo ou da publicidade inventou para abreviar freelancer.

Outro detalhe interessante: a turma de texto – eu e um editor – dividiríamos o trabalho na 2016 com nossas atribuições corriqueiras. Para mim, significava continuar na IstoÉ Dinheiro, como responsável pela área de negócios. O primeiro editor da 2016 foi o pernambucano Kléster Cavalcanti, que também cuidava do site da IstoÉ, mas ele ficaria só algumas semanas, porque receberia um convite para outro trabalho. Em seu lugar, chegou o desbocado, bem-humorado e emérito conhecedor de música brega, o paulista Edson Franco.

Mas vamos voltar um pouco. Eu e Kléster planejamos a revista na sexta-feira à tarde. Pensamos os nomes das seções, a estrutura, a linha editorial e o tipo de cobertura que faríamos. E decidimos, no mesmo dia, quem seria o personagem principal da edição de estreia: o nadador César Cielo, que um ano antes ganhara o primeiro ouro do Brasil na história da natação olímpica. Tudo muito rápido, como queriam os chefes.

Fizemos o projeto, o apresentamos à direção e quase tudo foi aprovado. Com alguns ajustes de navegação (a ordem em que as seções apareceriam na revista), nossas ideias avançaram. Começava ali o que mais me surpreendera – e o que mais me motivava: a liberdade de ação. Recebemos a incumbência de fazer uma revista “diferente, criativa, e que não fosse só de esportes, mas que abordasse tudo relacionado aos Jogos do Rio, de mobilidade urbana ao meio ambiente, de infraestrutura a negócios”. Não me disseram exatamente isso, mas as linhas gerais eram essas. O resto ficava por conta da equipe da 2016.

Que jornalista não gostaria de embarcar em um projeto desses? No meu caso, havia razões adicionais para a empolgação. Além de aficionado por esporte, eu nunca tinha feito algo parecido na carreira. Estava doido para acertar.

Nenhuma revista interessante começa sem um bom projeto gráfico. Nesse aspecto, a 2016 deu sorte. O responsável pelo visual da edição número 38 (a primeira, considerando a numeração regressiva) foi o diretor de arte Ricardo van Steen. Além da experiência com revistas, Ricardo também já tinha trabalhado como cineasta. Resultado: a 2016 ficou diferente. Não lembrava as publicações de esportes (a Placar, por exemplo, era mais quadrada), nem outras revistas da Editora Três. Teve, por assim dizer, cara própria. No mercado editorial, isso é bom. Infográficos (aqueles textos curtos com muita informação e ilustrados com gráficos ou fotos) caprichados, cores vibrantes, retratos dos atletas em situações fora do universo esportivo. Era uma revista bonita, fácil de ler.

Depois de oito meses de preparação, a 2016 estava quase pronta, com exceção da capa. César Cielo, nosso maior destaque na primeira edição, naquela época morava e treinava em Auburn, no Estados Unidos. Foi aí que tivemos a ideia: por que não contratar um fotógrafo americano para fazer o retrato de Cielo? Como não custa sonhar, procuramos o agente de Annie Leibovitz, uma das maiores retratistas vivas. Não deu certo por duas razões. A primeira: ela cobrava cachê de superestrela, cerca de US$ 30.000, valor proibitivo para o nosso borderô. O segundo motivo: Annie, nos informou o agente, não faz foto de revista que vai estrear.

Partimos para o plano B. Para fazer a foto de capa, Cielo topou pintar o corpo de dourado, numa referência ao seu ouro em Pequim. Antes, verificamos se a tinta não possuía elementos tóxicos que pudessem aparecer num eventual exame de doping. Tudo certo, tudo confirmado, datas agendadas após longa negociação, mas um problema inesperado quase põe tudo a perder. O fotógrafo – esse profissional em geral excêntrico que nós, a turma de texto, muitas vezes queremos ver a sete palmos do chão – simplesmente desistiu da viagem. O nome dele era conhecido: J.R. Duran, que fez fama fotografando mulheres peladas na Playboy. Duran me ligou quando faltava uma semana para a viagem. “Apareceu um compromisso publicitário, não posso ir.” Como assim? E o que nós combinamos? “Não posso ir, tenho compromisso publicitário.”

Raiva é uma palavra branda demais para descrever o que senti.

Como Cielo não tinha outra data – e a revista precisava sair de qualquer jeito – o editor executivo de fotografia da Editora Três, César Itiberê, precisou operar um milagre. Convenceu, minutos depois do não de Duran, o também estrelado Marcio Scavone para viajar aos Estados Unidos. Não poderia ter havido escolha melhor. Scavone, um sujeito afável (para os padrões dos fotógrafos estrelados), fez um retrato inesquecível para a primeira edição. Retrato esse que não teria sido possível sem a colaboração de Cielo. Ele, lembre-se, já era um campeão olímpico, mas topou ficar 6 horas prostrado para pintar o corpo de dourado.

A 2016 foi às ruas com Cielo na capa em junho de 2010. O texto foi escrito por Luiz Fernando Sá, o Lula, que viajou aos Estados Unidos para fazer a reportagem. Eu queria ter ido no lugar dele, mas não podia contrariar o chefe.

No fundo, já estava feliz demais pela oportunidade de fazer outras 37 edições da 2016.

PARA A PRIMEIRA EDIÇÃO DA 2016, LANÇADA EM JUNHO DE 2010, CÉSAR CIELO ACEITOU PINTAR O CORPO DE DOURADO. A PINTURA COMPLETA LEVOU SEIS HORAS, MAS CIELO NÃO RECLAMOU. O RETRATO É DE MARCIO SCAVONE

O atleta do salto em altura Vinícius dos Santos com uma passista, em foto da edição 38: ideia era fugir do lugar-comum

O atleta do salto em altura Vinícius dos Santos com uma passista, em foto da edição 38: ideia era fugir do lugar-comum

O MEIO

O diretor de arte Ricardo Van Steen fez o projeto gráfico da 2016, mas não continuou na revista. Já estava combinado que ele faria a primeira edição, mas depois sairia para tocar negócios pessoais. Em seu lugar, apareceu na redação um sujeito largado, com certo ar de ressaca, cabelos pretos encaracolados, barba por fazer e aquela aparência “tô nem aí” de quem não nasceu para trabalhar em escritório: o editor de arte Pedro Matallo.

Duvidei que ele seria capaz de fechar uma página direito, mas o currículo do cara era bom. Então, vamos lá. Àquela altura, a 2016 contava também com o editor de texto Edson Franco, e a sintonia entre eles foi imediata. Edson era matreiro, ágil com as palavras, um tirador de sarro indomável. Assim como Pedro, então casado com uma cantora de MPB, Edson conhecia música de todo o tipo, mas principalmente a brasileira. Como eles não poderiam gostar um do outro?

PROCURAMOS TRAZER O HUMOR PARA NOSSAS PÁGINAS. UMA DE NOSSAS MELHORES ENTREVISTAS foi COM O CARTUNISTA JAGUAR, QUE RECLAMOU DE TUDO, DA COPA DO MUNDO NO BRASIL, DA OLIMPÍADA, DO RIO – E DELE PRÓPRIO

Os dois tinham uma característica que se revelou fundamental para a 2016: não entendiam nada de esportes. Para isso, havia o chefe chato – eu. A falta de conhecimento, neste caso específico dos dois profissionais, foi importante para livrar a revista dos vícios do jornalismo esportivo. Fugimos dos jargões típicos deste universo. Desde que Pedro assumiu a responsabilidade pelo visual da 2016, na segunda edição (ou edição 37, na contagem regressiva), não publicamos uma imagem sequer dos anéis olímpicos. Essa foi uma ideia dele, que conseguimos cumprir à risca. Porque, e Pedro tem razão nisto, nada mais óbvio do que ilustrar uma reportagem sobre Olimpíada com os anéis, como também é banal escrever sobre o Rio e publicar uma imagem do Cristo Redentor. Às vezes, precisamos de gente excêntrica para escapar das ideias prontas.

Com pessoas como Pedro e Edson no time, a 2016 ganhou humor. Vamos fazer uma reportagem sobre o Maracanã? Em vez da foto feérica do estádio, aquela que todo mundo imagina, que tal ilustrar a reportagem com o velho torcedor desdentado que fazia sucesso na antiga geral? Por que não entrevistar, como nós fizemos, o irreverente cartunista Jaguar, um carioca da gema, para falar sobre a cidade que receberá os Jogos? E se levarmos o pessoal do hipismo para fazer uma foto ao lado de um carrossel, não seria bacana?

É chato falar de nossas virtudes, mas a 2016 fez coisas bem legais. Um de nossos mantras sempre foi: como poderíamos fazer isso de um jeito diferente e, portanto, seduzir o leitor? Foi assim principalmente com as nossas fotografias. Toda vez que tínhamos um personagem na agulha, fazíamos uma reunião em que as ideias corriam livres, sem censura ou pré-julgamentos. Ou seja, a gente podia falar besteiras à vontade. Assim, surgiu a ideia de fazer o nadador Bruno Fratus embaixo d’água, com roupa de escritório – apenas para justificar o título “Meu escritório é na raia”, a principal reportagem (na verdade, o perfil dele) da edição número 26.  Assim, alguém sugeriu fotografar o pessoal do levantamento de peso na praia. Saiu daí um dos ensaios de que mais gosto na história da revista. O atleta ergue uma barra de ferro onde estão pendurados dois moleques cariocas. A foto diverte, informa e seduz.

Acho que a 2016 deu liga porque nunca pensamos em fazer uma revista para agradar os chefes ou anunciantes. Sempre pensamos no leitor. O que podemos fazer de especial para ganhar esse cara? Por exemplo: nosso primeiro ensaio fotográfico sobre atletas paraolímpicos foi feito por um fotógrafo cego. Trouxemos Antônio Barbero, o Teco, dotado de apenas 5% da visão do olho esquerdo, para clicar atletas como Daniel Dias. Desculpe perguntar, mas isso não é diferente? O extraordinário é que as fotos ficaram realmente boas.

Alguns ensaios deram certo por vias tortas. Em 2011, colocamos o maratonista Marílson Gomes dos Santos na capa, ao lado de um tigre – uma tigresa, na verdade. A ideia era outra. Como Marílson era o único não queniano entre os líderes do ranking mundial da maratona, pensamos em fotografá-lo junto de um leão. O título seria algo como “Nosso leão contra os africanos”. O problema é que, no dia da foto, o leão em questão estava mal- humorado. Não dava para correr o risco. O treinador de animais optou pela tigresa, muito mais dócil. Ok, Marílson fez o ensaio, a tigresa se comportou, mas o que aquela imagem significava? Sequer há tigres na África. O jeito foi colocar na capa o título “Um tigre contra os leões”… Tigre, nesse caso, era o maratonista brasileiro. Os leões, os africanos. Não foi a melhor saída, mas foi a que deu para fazer.

A fotografia da 2016 é um caso à parte. Nesses quase 7 anos, fizemos coisas bem bacanas, graças ao esforço do editor executivo da Editora Três, César Itiberê, e do editor de fotografia, Frederic Jean. Itiberê contribuiu com boas ideias e Fred com retratos fantásticos, como o da nadadora Joana Maranhão debaixo de um chuveiro, capa da edição 24. É impossível falar da fotografia da 2016 sem lembrar da rivalidade entre dois jovens fotógrafos que, cada um à sua maneira, contribuíram para a maturidade da revista: João Castellano e Pedro Dias. Eles não poderiam ser mais diferentes. Castellano é impetuoso, gosta de arriscar. Pedro frequenta a igreja, fala baixinho. Castellano fez o ensaio de apresentação dos atletas para os Jogos do Rio. Você lembra? Ele levou Marcelinho Huertas e Raulzinho, da NBA, para jogar basquete com uma melancia, em uma feira livre do Rio. Pedro fez o premiado ensaio sobre racismo, em que pintamos de branco atletas negros. Você viu? É provocativa a capa com o jogador negro de vôlei Wallace gritando e com a cara pintada de branco.

Tivemos a sorte, como foi dito antes, de ter liberdade de ação. Não escrevo isso para agradar ninguém. Foi assim mesmo, e meus colegas de redação estão aí para confirmar. Nossa rotina de trabalho era assim: pensávamos as pautas, distribuíamos para os frilas, agendávamos as fotos, o material chegava, o pessoal de texto trabalhava o conteúdo, o Pedro, da arte, cuidava do visual, e a revista estava resolvida. Não havia instâncias superiores de aprovação, com exceção da capa. Em geral, preparávamos duas opções de capa para apresentar aos diretores da Três, Carlos José Marques e Luiz Fernando Sá, e ao presidente executivo, Caco Alzugaray. Da reunião entre eles, saía a capa que iria para a banca. Poucas vezes a escolhida não foi a que a redação desejava. Acho que a capa da edição 35 deveria ter sido o Daniel Dias fotografado por um cego, e não o retrato de três medalhistas olímpicas (Maurren Maggi, Natália Falavigna e Ketleyn Quadros). Tudo bem, não dá para ganhar sempre.

A 2016 não foi uma revista só de imagens. Acho que acertamos a mão em muitas reportagens. Isso se deve também à entrada no time de Lucas Bessel, que chegou para substituir o sempre bem-humorado Edson Franco, de saída da editora para trabalhar em um site de notícias. Lucas, um roraimense de dois metros de altura, parece um executivo da indústria automobilística. Sério, compenetrado e, em certa medida, desconhecedor das malandragens de uma redação, era o oposto de seu antecessor. Mas havia muita criatividade debaixo da fachada sisuda. Lucas, por exemplo, é ótimo guitarrista e fotografa melhor do que muito profissional da área. Como jornalista, tem duas qualidades essenciais: é rápido e escreve bem. Se você acha que estou exagerando, dê uma olhada  no perfil que ele fez do suíço Roger Federer. Bastaram 20 minutos de conversa para Lucas produzir um perfil radiante do maior tenista da história. O título da reportagem já é uma sacada: “Por que Roger Federer é um cara legal”.

Federer, surpreendentemente, é um sujeito sem nenhuma afetação. Zero. Alguns atletas que conhecemos de perto, nem tanto. Giba, talvez o maior jogador de vôlei da história, não foi nem um pouco legal com a nossa produtora. Durante o ensaio fotográfico em estúdio, pediu várias vezes para ela sair para comprar Red Bull. Ele também reclamou da reportagem que o Lucas escreveu, justamente porque mostramos que a imagem exterior que ele projeta – bonzinho, heroico – não condiz exatamente com a realidade. Dani Lins, outra craque do vôlei, chiou porque perdeu a capa da 2016 para a judoca Sarah Menezes. Matheus Santana, o nadador de 18 anos que comparamos com César Cielo, ficou irritado porque o levamos para fotografar em um parque aquático. “Sou homem, não sou criança”, disse.

Para a presente edição, a para- atleta americana Amy Purdy, que brilhou na abertura da Paraolimpíada ao dançar com um robô, topou fazer um retrato para nós, mas não quis dar entrevista. Ou seja, para ela só interessava aparecer sorrindo nas fotos. Falar que é bom, nada. De todos os marrentos, ninguém se compara com o paraolímpico Alan Fontelles. Tentamos produzir uma capa com ele durante um ano. Depois de muitas idas e vindas, pedidos insistentes, cancelamentos, mentiras e desculpas furadas, Alan finalmente veio ao estúdio para fotografar – mas quis ir embora logo, porque tinha mais o que fazer.

A 2016 pegou no pé de diversas confederações. Revelamos as maracutaias na Confederação de Basquete e Tae Kwon Do, a ineficiência da turma do Atletismo, a bagunça do Boxe, os equívocos do Bolsa Atleta. Sobre o Rio, fomos o primeiro veículo a denunciar com destaque a poluição da Baía da Guanabara. Foi em Dezembro de 2010, quatro anos antes de o assunto explodir nos jornais. O multimedalhista Torben Grael  disse que estava cansado de ver cadáveres boiando ali e que nunca tinha velejado em lugar pior.

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Acertamos, mas fizemos muita besteira também. Sinto certa vergonha de um material que publicamos na mesma edição 36, a que traz Torben na capa. Fizemos um “ensaio sensual” com atletas olímpicas. O título, bobinho, foi  “lindas e talentosas”, e o texto (na verdade, algumas poucas linhas) as tratava como musas. Existe uma palavra para definir um trabalho desse tipo: machismo. Sim, senhor. Qual é o sentido de publicar, em espaço nobre, fotos de atletas apenas por que as julgamos bonitas? Como as leitoras se sentiram a esse respeito? O que dá certo alívio é que, 4 anos depois, fizemos uma ampla reportagem com o título “Abaixo as musas”. Era um texto que discutia o sexismo no esporte em geral e na imprensa em particular. Uma revista deve ser sensível às mudanças do mundo. Do lançamento da 2016 para cá, a discussão feminista ganhou força. Felizmente, a 2016 ficou atenta a isso. Nos quase 7 anos de revista, acho que amadurecemos como profissionais.

Mesmo assim, não dá para ignorar nossas derrapadas. Perdi a conta das apostas erradas que fizemos. Em setembro de 2013, na edição 23, demos capa para o decatleta Carlos Chinin, que acabou despontando, logo depois, para o anonimato. Nunca mais se ouviu falar de suas aptidões esportivas. O próprio Matheus Santana é exemplo disso. Em novembro de 2014, insinuamos que ele seria o novo Cielo – era cedo demais para afirmar isso, como os resultados nos Jogos do Rio provaram. Dois meses antes da Olimpíada, colocamos também no espaço mais nobre da revista o jogador de vôlei Murilo. Já havia certa dúvida se ele seria convocado ou não por Bernardinho, mas nós não percebemos os sinais. Murilo saiu na capa – e o anúncio de que ele estaria fora do Rio foi feito pouco depois, para nosso constrangimento.

Houve apostas certeiras, é claro. Fiquei irritado quando os jornais e outras revistas disseram que o canoísta Isaquias Queiroz, três vezes medalhista no Rio, era uma surpresa, um completo desconhecido. Em outubro de 2014, a 2016 publicou um perfil de seis páginas com a extraordinária história dele, já tratando-o como fenômeno. Quer ver outro acerto? Róbson Conceição foi capa da edição 8, em março de 2016, quando ninguém falava do futuro campeão olímpico do boxe. Não é para ter orgulho disso?

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O FIM

Nós, da 2016, inventamos um desafio: em quanto tempo seríamos capazes de fechar uma edição da revista? Com profissionais velozes na equipe, como o editor de arte Pedro Matallo e o editor de texto Lucas Bessel, calculamos que seria possível fazer tudo em 5 dias. Tudo significa o seguinte: pegar o material dos frilas, editar (editar, muitas vezes, era sinônimo de reescrever), jogar na página, fazer uma apresentação visual aprazível e mandar para a gráfica. Na edição número 2, a que traz a cobertura olímpica, batemos essa meta: ela foi feita em dois dias e meio.

Para a edição derradeira, a de número 1, havia um problema à vista: o Lucas pedira demissão para trabalhar em uma companhia chinesa de tecnologia. O cara ficou seduzido pela chance de conhecer Pequim e, quem sabe, de se tornar o Zuckerberg da vez. Resultado: eu estava sozinho para cuidar do texto da edição. Para complicar, agora divido a 2016 com minhas atribuições na ISTOÉ, onde trabalho como redator-chefe. Seria um fechamento duro e provavelmente triste, por ser o último da revista.

Escrevo isso porque acho que a 2016 encontrou um caminho interessante para o cada vez mais desafiador mercado de revistas. Se a equipe for afinada, ágil e veloz, dá para fazer uma publicação como essa com três ou quatro profissionais fixos, desde que haja um bom time de frilas. Levamos ao extremo o conceito de “enxuto”.

Esta última edição foi realizada com apenas dois profissionais fixos: eu e o Pedro Matallo. Tivemos enormes dúvidas sobre que capa escolher. Você deve ter visto, a revista tem uma ótima entrevista e excelentes fotos de Bernardinho, talvez o esportista mais vitorioso da história do Brasil. Também havia a opção de colocar no espaço nobre o Daniel Dias, o Michael Phelps dos paraolímpicos.

Mas isso não seria comum demais? São belos personagens para qualquer edição, menos a de despedida. A 2016, que sempre teve a pretensão de fugir do lugar-comum (como você leu antes, algumas vezes conseguimos, outras não), merecia um final mais criativo.

O Pedro insistiu nisso, ligou para fotógrafos parceiros e conseguiu uma imagem que simbolizasse um adeus. São garotos na praia, o cenário os abraça e há certa nostalgia na cena. Escrevi apenas, sobre a foto, um “Obrigado, Rio”. Juro por tudo o que é sagrado que foi um agradecimento sincero. Mil vezes obrigado.

É madrugada de domingo para segunda e estou prestes a colocar um ponto final neste texto. E na própria 2016. Daqui a pouco ela vai para a gráfica. Foi uma boa jornada.

A capa abaixo é uma de nossas apostas erradas. apontamos o decatleta Carlos Chinin como uma provável estrela do atletismo brasileiro. depois desta reportagem, Chinin não alcançou mais bons resultados

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