Reportagem

O papel do DNA

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João Bosco Pesquero é um professor de biofísica da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) com uma ambição em mente: mudar para sempre o esporte de alto rendimento no Brasil e, quem sabe, no mundo. Ao lado de sua equipe, composta de especialistas em genética, educadores físicos e até mesmo um finalista olímpico, o cientista usa análises de DNA para melhorar a performance de atletas do presente e do futuro. Mas o pesquisador possui um caminho longo pela frente. A despeito dos muitos sucessos que acumula em campo, seu inovador trabalho levanta desconfiança nos meios acadêmico e esportivo. O maior problema é a resistência em adotar novidades que desafiem dogmas há muito estabelecidos. Em setembro, o professor apresentou em Santos, no litoral paulista, alguns de seus resultados durante o Congresso Internacional de Ciências do Esporte (Icsemis), o maior e mais importante da área no mundo. O evento é realizado uma vez a cada quatro anos, logo depois da Olimpíada, sempre no país-sede dos Jogos. As informações apresentadas pelo grupo de Pesquero foram recebidas com fascínio por alguns dos colegas, mas com descrença por outros. O cientista está confiante de que a técnica tem efeito, e os indicadores parecem mostrar que ele tem razão. “Eu acredito que o método pode revolucionar o esporte, tanto para crianças quanto para a elite”, diz. “Estamos vendo resultados que podem mudar o futuro.”

O projeto deslanchou em 2009, quando começaram a ser coletadas amostras do DNA de mais de mil atletas de ponta do Brasil. O objetivo foi fazer um banco de dados com as informações genéticas de esportistas de alto desempenho, para que se pudesse entender as características de jogadores de várias modalidades. Entre eles estão Gustavo Kuerten (tênis), César Sampaio (futebol), Oscar Schmidt (basquete) e Aurélio Miguel (judô). O próximo passo foi identificar marcadores genéticos específicos relacionados ao rendimento atlético. Ou seja, foram levantadas quais alterações no DNA são responsáveis pela maior capacidade muscular, vasodilatação e assim por diante. Com essas informações em mãos, desenvolveu-se um índice que dá pontos para força ou resistência. Com ele, um esportista pode ser classificado como 80% explosão e 20% energia, por exemplo. O passo final, aquele que seria decisivo para validar o trabalho, foi o mais difícil: convencer profissionais a aplicarem esses conhecimentos na prática, modificando sessões de treinamento e estratégias em quadra de acordo com o modelo genético de seus jogadores.

A chance veio entre 2012 e 2013, com a péssima temporada de estreia do Palmeiras no Novo Basquete Brasil (NBB), liga oficial do País. Durante todo o primeiro turno da competição, a equipe ocupou as últimas colocações. Em 17 jogos, foram apenas 2 vitórias. Na virada para a segunda fase do torneio, o preparador físico Chiaretto Costa foi contratado pelo Palmeiras. Como ele era um dos pesquisadores trabalhando ao lado do professor Pesquero, ofereceu ao clube o método do aperfeiçoamento via DNA. Como o Palmeiras não tinha nada a perder, a proposta foi aceita. E um milagre aconteceu. O pior time do campeonato começou a ganhar as partidas do segundo turno (10 vitórias de 17) e se classificou para os playoffs, as eliminatórias finais. Com a virada, considerada histórica, houve até jogadores que desistiram de se aposentar.

O segredo foi desenvolver protocolos de utilização do perfil genético no treinamento e na tática. Ao alaarmador, Neto, que possuía características de força e resistência, foi recomendado que abusasse de jogadas de habilidade perto da cesta, obrigando o marcador a acompanhá-lo. De perfil misto, ele juntava vigor para cansar o adversário e potência para concluir o ponto. A seus colegas, cujos índices se destacavam pela força, a recomendação era dar trombadas. Nas duas temporadas seguintes, o Palmeiras, antes patinho feio, chegou à fase final. “O basquete é o esporte com mais tarefas físicas, porque você corre e pula sem parar”, afirma Costa. “É o nosso melhor laboratório.”

Um ano depois, Costa falou sobre o estudo com outro preparador físico, Adilson Doretto, responsável pela equipe de basquete de São José dos Campos, uma das potências da modalidade na época. Ele se interessou, mas, desta vez, o desafio era comprovar o método em jogadores que já apresentavam bom rendimento. Como o calcanhar de Aquiles do grupo era o alto número de lesões, essa foi a brecha que Doretto encontrou para convencer a diretoria joseense no começo da temporada de 2013/2014. Os resultados não demoraram a aparecer. O caso considerado mais emblemático foi o do pivô Jefferson, um jogador matador mas pouco aproveitado. Além de se cansar muito rápido, colecionava lesões, principalmente em treinamentos. Graças à análise genética, uma nova série de exercícios foi desenhada e ele passou 60 dias longe dos campeonatos se preparando. Na volta, parecia outro atleta. Seu tempo em jogo passou de 15 para 35 minutos (dos 40 minutos possíveis). Não se lesionou mais na temporada, bateu vários recordes e, depois de oito anos fora, foi novamente convocado para a seleção brasileira.

Jefferson não foi o único beneficiado. Outro exemplo é o do armador Fúlvio, quatro vezes considerado o melhor da posição no NBB. Fúlvio tinha um histórico grande de lesões, que diminuiu muito depois da aplicação do treinamento orientado pelo exame de DNA. Ao mudar de clube, voltou a se machucar e pediu permissão ao novo preparador para usar o método que já havia funcionado. Recuperado, está atualmente na seleção nacional. Já o armador Vitinho era considerado preguiçoso e mal marcador. A verdade era que, durante a carreira, fora utilizado de maneira incompatível com suas características genéticas. “Naquele ano, acabamos na terceira colocação”, diz Doretto. “A melhor temporada do São José no NBB.”

Alcançar esses resultados decorre de uma interpretação minuciosa dos dados que Pesquero consegue em laboratório. O trabalho prático cabe aos preparadores físicos Costa e Doretto, que atuaram no Palmeiras e no São José. Antes disso, no entanto, é preciso identificar quais são os atributos genéticos de cada esportista. À frente do processo está Giscard Oliveira Lima, mestrando do Departamento de Biofísica da Unifesp e responsável por analisar os quatro trechos do DNA envolvidos no estudo, que estão relacionados à produção de proteínas importantes. Duas são associadas à força, a alfa-actinina 3 (ligada a fibras musculares rápidas) e o receptor B2 da bradicinina (que recebe ação de um potente vasodilatador). As outras duas são relacionadas à resistência: a enzima conversora da angiotensina (associada ao controle da pressão arterial) e o angiotensinogênio (que diz respeito à hipertrofia muscular). Juntos, esses quatro marcadores são descritos na literatura científica como sendo fundamentais à alta performance esportiva. Ou seja, é por meio deles que Pesquero descobre se os atletas são mais voltados à força ou à resistência.

O problema é que são pouquíssimos marcadores em comparação com os cerca de 300 comprovadamente identificados como fundamentais para atletas. Os críticos do estudo argumentam que, entre três centenas de trechos de DNA envolvidos com o rendimento atlético, tirar conclusões a partir da análise de apenas quatro deles é muito simplista. Foi o que os pesquisadores ouviram durante a apresentação no ICEMIS, em setembro. Surpreendentemente, a equipe é a primeira a admitir essa limitação. Argumentam, porém, que a análise dos quatro principais marcadores é a melhor possível a baixo preço. O índice de acerto fica em 80%, custando menos de R$ 200 por pessoa. Um exame mais abrangente dos 300 genes poderia sair por até R$ 20 mil por cabeça, inviabilizando o levantamento em larga escala. Para prosperar no mundo acadêmico, o trabalho precisa ser publicado numa revista científica, o que o grupo prevê realizar até o fim do ano. “Apesar das críticas, estou otimista”, afirma Lima. “A resposta da comunidade acadêmica tem sido mais positiva do que negativa.”

A análise do DNA de jogadores poderia responder a algumas questões não esclarecidas do esporte. Por que Neymar, apesar de seu porte físico franzino, possui tamanha potência no chute? Por que Ronaldo Fenômeno se machucou depois do ganho intenso de massa muscular enquanto outros passaram pelo mesmo tratamento sem maiores consequências? O chileno Valdívia, ex-jogador do Palmeiras, se lesiona tanto porque é submetido a treinamentos incompatíveis com seu p erfil genético? Essas são algumas das dúvidas que os próprios pesquisadores se perguntam. Um dos principais nomes da equipe científica possui extenso currículo competitivo e científico. Finalista olímpico no atletismo dos Jogos de Moscou (1980) e Los Angeles (1984), Paulo Correia hoje é fisiologista da Unifesp e um dos maiores entusiastas da aproximação com o esporte que é paixão nacional. “O basquete nós já trituramos”, diz. “Agora o objetivo é pegar um time de futebol e interferir no treinamento, mas isso ninguém quer.”

Mesmo com seu histórico, ele não conseguiu convencer equipes como o Juventus e o Fortaleza a lançar mão do programa. Credita o entrave ao conservadorismo do mundo da bola, que não aceita interferências externas nas rotinas estabelecidas há décadas. Atualmente, o uso da tecnologia no futebol se resume à fisiologia, ou extensos exames do organismo dos jogadores. A falha, de acordo com Correia, é que a fisiologia consiste em uma fotografia de como o corpo está, enquanto a genética mostra como ele é. Seu sonho é promover o casamento entre as duas disciplinas, o que ainda não foi feito no esporte mais popular do Brasil.

Os próximos anos podem mudar completamente a forma como o establishment esportivo enxerga o estudo de Pesquero e seus colegas. A reitora da Unifesp, Soraya Smaili, acredita que a apresentação dos resultados de Pesquero no ICEMIS é fundamental para o crescimento da pesquisa. “Muitas pessoas que estão trabalhando com isso em outros países vieram”, diz. “Tenho certeza que o professor foi muito procurado por conta do enorme banco de dados que está montando.” No basquete, o trabalho continua no Osasco, que faz uma boa campanha no Campeonato Paulista e acaba de vencer os Jogos Abertos do Interior. “O caminho é inovador e muda completamente o treinamento e a forma de montar uma equipe”, afirma o técnico do time, Ênio Vecchi, que já esteve à frente das seleções brasileiras masculina e feminina.

Nas categorias de base do Santos Futebol Clube, uma porta está se abrindo para o futuro. A equipe que mais valoriza a formação de seus atletas fechou uma parceria com Pesquero. Ela funciona como uma espécie de intercâmbio, em que o time recebe informações genéticas do laboratório em troca do envio de dados de testes fisiológicos coletados no centro de treinamento. A ideia é cruzar indicadores para melhorar o rendimento dos garotos e ajudá-los a chegar ao profissionalismo. Um menino 100% força que não está apresentando os mesmos índices nos testes práticos poderá ter sua carga de treinamento aumentada. Outro garoto que seja 100% resistência seria desperdiçado se fosse colocado para dar tiros rápidos entre as quatro linhas. “Esse conhecimento não só pode, mas tem que ser usado também pela equipe profissional no futuro”, diz Gustavo Jorge, coordenador físico das categorias de base do Santos. “É a evolução do esporte.”

A experiência na Vila Belmiro é importante porque está em sintonia com o principal objetivo de Pesquero: fazer com que sua pesquisa estimule crianças à prática de esportes. A ideia é que elas não desistam caso comecem atividades para as quais não são geneticamente aptas. Mas Pesquero não se cansa de dizer que o DNA não pode ser determinante para a escolha (ou imposição) de uma modalidade aos jovens. A afinidade é mais importante do que tudo, sendo a genética (ao lado da dedicação, alimentação, sono, entre outros fatores) apenas uma das ferramentas na caixa que faz um grande campeão. Esta visão fez com que entidades como o Comitê Olímpico Brasileiro (COB) demonstrassem interesse pela pesquisa do professor.
Desse modo, aos poucos, está vindo à luz um conhecimento que poderá, para sempre, mudar a cara do jogo. “Nosso maior desejo é que as crianças façam uso do método”, afirma Pesquero. “Mais crianças trazem mais atletas de elite e, consequentemente, mais medalhas olímpicas.”

Times de basquete do palmeiras e do são josé passaram a ganhar
mais partidas depois de usar o estudo 
do DNA como base para os
treinos. O futebol de base do santos também faz parte do projeto

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