Basquete

O que fazer para que estas cenas não se repitam?

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O presidente da Confederação Brasileira de Basquete (CBB), Carlos Nunes saiu cedo da segunda edição do NBB Marketing Summit, em um shopping de São Paulo. Não ficou para ver a palestra de Emilio Collins, vice-presidente executivo de parcerias globais da NBA, ou da responsável por área semelhante do Twitter no mundo, Marie Sornin. Também não falou com a imprensa. A atitude do dirigente reflete o momento do basquete brasileiro. De um lado, uma liga forte, muito bem relacionada, com uma base sólida para seguir crescendo. De outro, uma Confederação com gestão arcaica, que puxa para baixo toda a evolução obtida pelos clubes nos últimos dois ciclos olímpicos. São duas realidades distintas, que praticamente não conversam e mantêm uma relação apenas institucional – a Liga Nacional de Basquete (LNB) diz preferir um cenário sem ingerências para não pôr a perder a boa relação. Os clubes levam cada vez mais torcedores aos ginásios, engordam seus orçamentos ano a ano e ajudam a recolocar o basquete na briga pelo posto de segunda modalidade mais popular no País. Mas eles terão papel quase nulo na eleição que vai definir o próximo presidente da CBB, no primeiro trimestre de 2017. Ou seja: o braço deles não chega à raiz do problema. E nem quer chegar, pelo que afirma a Liga.

Eleito em 2009 e reeleito em 2013, Carlos Nunes – ou Carlinhos, como é chamado no meio do basquete – está em seus últimos meses de gestão, não pode se reeleger mais uma vez (até poderia tentar uma manobra, se tivesse qualquer força política) e não deixará saudade. É, hoje em dia, um ex-presidente em exercício. Com algum manejo político, conseguiu se segurar nas primeiras crises. Quando a seleção masculina ficou fora do Mundial de 2014, comprou a vaga oferecendo uma “doação” de US$ 1,3 milhão à Federação Internacional de Basquete (Fiba), o que lhe valeu o convite para disputar a competição. Sem pagar a conta, correu o risco de não obter vaga direta na Olimpíada. A classificação só veio porque patrocinadores assumiram a dívida. Depois, foram os presidentes de federações que enterraram a ideia de um impeachment, para preservar a Confederação, quando surgiram denúncias de irregularidades na CBB, todas ligadas diretamente a Carlinhos.

Argentinos comemoram vitória contra o Brasil: resultado nas quadras é reflexo de gestões arcaicas na Confederação

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Ele, entretanto, cavou sua cova quando, passada a Olimpíada, anunciou à Fiba o cancelamento, em cima da hora, de uma etapa do Circuito Mundial de Basquete 3×3 (basquete de rua), que seria realizada no Rio, em setembro. A federação internacional não engoliu ter que arcar com mais esse prejuízo e anunciou uma intervenção branda na CBB, quase amistosa, a partir de outubro. O espanhol José Luis Saez vai liderar uma força-tarefa que deverá checar o tamanho do buraco em que a Confederação se meteu. Só assim para decidir se vale a pena punir a CBB, o que a tiraria de competições internacionais, ou se isso equivaleria a chutar cachorro morto.

Nunes está tão desacreditado que foi absolutamente alijado do processo eleitoral que vai escolher seu substituto. São dois candidatos declarados: Amarildo Rosa, presidente da federação do Paraná, que é o grande favorito na disputa, e o ex-técnico da seleção brasileira feminina Antônio Carlos Barbosa, incentivado por federações inexpressivas no cenário nacional, especialmente do Norte e do Centro-Oeste. A assembleia é formada por 28 eleitores: as 27 federações estaduais, mais a Associação de Atletas Profissionais de Basquetebol do Brasil (AAPB), presidida pelo ala-pivô Guilherme Giovannoni, da seleção brasileira e do Brasília. Os clubes não votam.

Quem assumir só deverá conhecer com exatidão o tamanho do abacaxi quando puder segurá-lo na mão. Que a CBB está quebrada e com o nome sujo na praça não é segredo para ninguém. O tamanho do rombo é que é a grande incógnita. No balancete de 2015, a dívida apontada foi de R$ 17 milhões, sendo que boa parte desse montante venceu (ou vencerá) em 2016. Para piorar, a falta de uma certidão negativa fez com que fosse bloqueada boa parte dos recursos do convênio firmado com o Ministério do Esporte para a preparação da seleção masculina às vésperas da Olimpíada. Pelo que apurou a 2016, cerca de R$ 4 milhões que deveriam ser custeados pelo convênio saíram do caixa já enxuto da CBB. “Vamos ter que solucionar primeiro o problema de estar falida”, diz o candidato Antônio Carlos Barbosa, apesar de afirmar que ainda não tem uma plataforma detalhada. “Vamos fazer uma auditoria, tentar ver a situação. Ideia do problema você tem. A real situação, porém, é outra. Vamos ver as condições, que tipo de negociação pode ser feita”, acrescenta o treinador, que não se coloca como opositor daquele que era seu chefe até dois meses atrás. “Acho muito antiético estar numa disputa para assumir uma Confederação e julgar quem me antecedeu. Basquete não tem situação nem oposição.”

Amarildo tem o apoio declarado de 15 eleitores (que podem mudar de ideia até a eleição) e promete fazer um “choque de gestão”, caso seja eleito. Mas ele, como quase todos seus apoiadores, votou favoravelmente à aprovação das contas de Carlos Nunes no ano passado – fora o único voto contrário em 2015. “Foi um combinado nosso. Em véspera de Olimpíada, a gente acertou de não deixar de aprovar as contas, porque já tinha muita notícia ruim no basquete, muita notícia de uso de dinheiro indevido da CBB”, admite o dirigente, que há 12 anos comanda a federação paranaense e é um dos líderes do grupo que, em 2009, elegeu o gaúcho Carlos Nunes. Em 2012, novamente apoiou Carlinhos contra Gerasime Bozikis, seu antecessor. “Primeiro a gente queria tirar o Grego (Bozikis). No primeiro mandato do Carlos, as coisas pareciam que iam acontecer, mas não aconteceram”, avalia Rosa.

80-853

Na opinião dele, as coisas só vão mudar quando, na fachada do 16º andar do prédio 245 da Avenida Rio Branco, no coração do Rio, for estendida uma faixa: “CBB – sob nova direção”. A atual está desacreditada depois de deixar a situação financeira em nível caótico. Apesar de realizar uma gestão criticada por gregos e troianos, Bozikis entregou a presidência com quase todas as contas em dia. Em dois anos, a dívida passou de R$ 9 milhões. Estacionou nisso entre 2011 e 2013, subindo R$ 4 milhões em cada um dos últimos dois anos. Ao fim de 2015, todos os ativos da CBB não pagavam nem metade da dívida acumulada.

Ninguém na entidade fala com a imprensa desde os Jogos Olímpicos do Rio – a determinação é que novas entrevistas só serão realizadas depois de uma reunião de avaliação do cenário, em outubro –, mas os dirigentes da CBB por diversas vezes culparam a falta de recursos pela crise financeira. A entidade, porém, gere todo ano, desde 2011, um orçamento entre R$ 24 milhões e R$ 27 milhões. Boa parte desses recursos é utilizada para o pagamento de juros e das dívidas em si. E um montante significante da receita provém do Comitê Olímpico do Brasil (COB), de convênios com o Ministério do Esporte e da Lei de Incentivo Fiscal. É o chamado “dinheiro carimbado”, que precisa, obrigatoriamente, ter a destinação prometida. Pode ir para organizar campeonato, promover treinamento, pagar salário de técnico, mas não serve para pagar dívida.

Uma das soluções seria um patrocínio estatal, algo que quase todas as principais confederações olímpicas tiveram no último ciclo. A CBB ficou desassistida desde que, em 2013, a Eletrobrás alegou “sucessivos e reiterados descumprimentos contratuais” para romper uma renovação do patrocínio, que vinha desde 2003 e que recém havia assinado. A empresa agora cobra R$ 4,1 milhões da CBB na Justiça, o que fechou a porta para recursos de outras estatais. Pesa contra, também, uma dívida de quase R$ 5 milhões com o governo, entre INSS e impostos atrasados. “A credibilidade hoje é muito baixa. Você é o cara que decide numa empresa, você acha que o basquete é legal para caramba, vai dar visibilidade. Você se interessa. Vai ver a finança, vê uma dívida de 20 milhões, seu interesse cai a zero. De onde a confederação vai achar dinheiro para pagar essa dívida? Uma intervenção? Acho muito difícil. Alguém tem que pagar essa dívida. A mudança tem que ser administrativa. Profissionalizar tudo dentro da confederação”, diz Giovannoni. “O Carlos Nunes tem muita responsabilidade. Muita. E espero que ele assuma essa responsabilidade.”

Quando a Caixa Econômica Federal resolveu entrar no basquete, no primeiro semestre deste ano, o fez por meio de um gordo contrato de três temporadas e meia para patrocinar tanto o NBB (R$ 22 milhões) quanto a Liga de Basquete Feminino (LBF, R$ 10 milhões). A CBB tem o patrocínio do Bradesco, em vias de se encerrar, o que inviabilizaria o apoio de um banco concorrente. Boa parte dos recursos obtidos com patrocínios é usada para pagar a estrutura desproporcional da CBB, que até o fim do ano passado tinha quase 30 funcionários. Tanto Barbosa quanto Rosa tratam o enxugamento da folha salarial como obrigatório. Para isso, ajuda a saída do argentino Rubén Magnano, demitido depois da Olimpíada, e um dos treinadores mais bem pagos do esporte olímpico brasileiro. Tanto o cargo dele, na seleção masculina, quanto o que foi de Barbosa, na feminina, estão vagos e devem ficar assim nos próximos meses.

Desde a criação da LBF, em 2010, a CBB praticamente não tem mais gastos relacionados a competições interclubes. Ou seja: torra um orçamento de cerca de R$ 25 milhões só com seleções, que se reúnem uma única vez por ano, e com os campeonatos brasileiros interestaduais de base. Em 2016, entretanto, nenhum deles foi realizado. A seleção feminina sub-18 disputou a Copa América sem treinar antes de viajar. No masculino, a CBB pediu que o Pinheiros enviasse seu time sub-18 inteiro. O clube paulista, por iniciativa própria, chamou cinco jogadores de destaque de outros clubes para treinar em São Paulo e formar uma “seleção”, pagando pelos custos. A viagem das duas equipes nacionais ao Chile só foi possível porque a Liga Nacional de Basquete (LNB) pagou a conta.

Única liga parceira da NBA, a LNB, organizadora do NBB, da Liga Nacional de Desenvolvimento (sub-22) e da Liga Ouro (segunda divisão) é quem salva o basquete brasileiro do buraco. Sempre que solicitada, ajuda a CBB. Também cedeu espaço físico e sua força de trabalho na área de comunicação para a liga feminina em um momento de crise, no ano passado, quando a LBF tinha só seis times. Agora, com o patrocínio da Caixa, as coisas tendem a melhorar para a próxima temporada, tanto que a LBF já anda com pernas próprias, sem precisar usar a LNB como apoio.

Indo para sua nona edição, o NBB está consolidado. Organiza anualmente um campeonato com 16 times, porque a média de clubes fechados é menor do que um por fim de temporada, número bem melhor do que o do vôlei, por exemplo. A Liga Ouro de 2016 teve seis times e pode chegar a 10 na próxima temporada, o que permitiria ao País ter 26 equipes de alto rendimento. Desses, pelo menos 10 têm projetos consistentes e duradouros.

“Uma das funções da Liga é desenvolver um trabalho para que esses clubes sejam contínuos. A gente quer ter patrocínio para passar para os clubes. Enquanto isso não se der, cada um vive das suas receitas e da sua realidade. Repassamos ajuda só em termos de estrutura, mas queremos crescer”, diz Cássio Roque, presidente da LNB, que tem como meta colocar o NBB entre as cinco maiores ligas do mundo. Regionalmente, o Brasil já é soberano, fazendo os últimos três campeões da Liga Sul-Americana e três dos últimos quatro da Liga das Américas (em 2016 ganhou o Guaros de Lara, da Venezuela, mas os brasileiros ficaram em 2º, 3º e 4º lugares).

O momento dos clubes grandes é bom (o público cresce, há transmissão semanal na TV, a crise que atingiu prefeituras afetou menos o basquete do que outras modalidades), mas o desafio nos próximos não é pequeno. Os estaduais estão cada vez menores (o Paulista acontece com 10 times, o Carioca com só quatro) e isso se reflete no fechamento de clubes tradicionalmente formadores, que não têm como competir contra gigantes cujo orçamento anual é medido na casa de milhões. O quadro é  grave, mas a boa notícia é que o paciente tem cura.

O futuro do basquete começa a ser deacidido no primeiro trimestre de
2017, quando haverá eleição para a presidência da confederação. Até lá,
o esporte será obrigado a conviver com dúvidas e suspeitas de corrupção

Esperança no masculino

Eliminação precoce na Olimpíada encerra ciclo de Nenê e companhia, mas abre espaço para uma nova – e mais talentosa – geração

E se aquela bola de três do argentino Nocioni, a três segundos do fim, tivesse chorado e caído fora da cesta? Talvez agora o Brasil estaria orgulhoso de sua quarta medalha no basquete masculino dos Jogos Olímpicos. A linha tênue entre uma bola dentro ou fora num dos maiores clássicos do esporte foi o que transformou em fracasso uma campanha que poderia ser histórica. A seleção sempre soube que, para ganhar medalha, precisava antes dar um passo gigantesco: passar da primeira fase. No chamado “Grupo da Morte”, o equilíbrio foi tão grande que só duas vitórias não bastaram para avançar. O Brasil, que ganhou de Nigéria e Espanha e perdeu da Argentina (na segunda prorrogação), Croácia (por quatro pontos) e Lituânia (por seis), nem às quartas de final chegou. “A gente esperava um resultado melhor, poderíamos ter disputado medalha”, avalia o ala Giovannoni.  “Podemos considerar que foi um fracasso de resultado? Sim. Mas, devido ao equilíbrio, não entendo como fracasso técnico”, opina Cássio Roque, da LNB, replicando um comentário feito por muita gente do basquete. O Brasil, afinal, jogou de igual para igual com todo mundo e venceu a forte Espanha, rival que deu sufoco nos Estados Unidos e ficou com o bronze.

A despeito do fato de o Brasil não se classificar para a segunda fase por muito pouco, o fracasso é inquestionável e põe fim à geração de Nenê, Anderson Varejão, Leandrinho, Alex Garcia, Marcelinho Huertas e Guilherme Giovannoni, que se despede sem feitos relevantes na seleção. Aos 31 anos, Tiago Splitter ainda pode ajudar. A geração que vem aí é talentosa e chegou cedo à NBA, com nomes como Raulzinho, Bruno Caboclo e Cristiano Felício. Há ainda Rafa Luz e Augusto Lima, com experiência na Espanha, e Wesley Sena, que começou bem no Barcelona.

Com a saída de Magnano, a seleção passará por mudança de comando. José Neto (Flamengo), Guerrinha (Mogi), Demetrius (Bauru) e Gustavo De Conti (Paulistano) já mostraram condições para ficar a vaga. O trabalho deverá ser a médio prazo, mas tende a dar frutos.

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