Ginástica

O salto da ginástica

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A evolução da ginástica artística masculina pode ser resumida nas últimas três Olimpíadas. Em 2008, Diego Hypólito, aos 22 anos, desembarcou em Pequim como favorito à medalha de ouro no solo. Mas o bicampeão mundial errou seu último movimento, caiu sentado e terminou na sexta colocação. Naquele mesmo ano, Arthur Zanetti, aos 18 anos, comemorava as primeiras convocações para a seleção principal, depois de ter sido campeão pan-americano nas argolas, e Arthur Nory, aos 15 anos, era o campeão brasileiro infantil. Quatro anos mais tarde, em Londres, Zanetti fez a sua estreia em Olimpíadas. Numa exibição quase perfeita, ficou com a medalha de ouro. No campo oposto, Hypólito teve uma nova queda, agora na fase classificatória, e ficou fora das finais, após ter superado uma série de lesões no seu ciclo olímpico. Nory vinha de conquistas sul-americanas juvenis e assistia aos colegas de longe. Na Rio-2016, os três ginastas tiveram um encontro com o pódio: prata para Zanetti e Hypólito e bronze para Nory. “Fomos o País que mais evoluiu nesse ciclo olímpico e viramos referência para outras equipes”, diz Cristiano Albino, técnico da seleção brasileira e do Esporte Clube Pinheiros. “Não só nos resultados individuais, mas fizemos história na final por equipes, pulando de 13º, em Londres, para 6º no Rio.”

Nenhuma outra modalidade evoluiu tanto no Brasil como a ginástica artística. Enquanto nesses últimos 12 anos ela conseguiu atingir o ideal de mesclar atletas com diferentes idades e níveis de experiência, outras voltaram ao ponto zero, como a natação. Depois das duas medalhas em Pequim, com César Cielo, e outras duas em Londres, de Cielo e Thiago Pereira, nenhum brasileiro brilhou na piscina do estádio aquático olímpico. Invariavelmente, os nadadores do Brasil fizeram tempos piores do que o registrado em outras competições importantes, como o mundial, mostrando que, para a maioria dos atletas, pesou a imaturidade e a inexperiência. A lição deixada pela ginástica é a importância da constante renovação de talentos. Neste novo ciclo olímpico de preparação para Tóquio 2020, o País deverá contar tanto com os conhecidos medalhistas Zanetti e Nory como com novatos que começam a despontar nas competições juvenis e adultas, como Angelo Assumpção, Felipe Arakawa, Caio Campos e Henrique Flores. “No Brasil e na América Latina, as modalidades vivem um efeito gangorra de resultados e não cíclico. Mostramos que um investimento consistente e de longo prazo dá certo”, afirma o argentino Raimundo Blanco, diretor-técnico da ginástica do Pinheiros, há 30 anos no País. “Mas é preciso deixar claro que o sucesso não depende apenas dos atletas top, mas de um processo que precisa olhar para baixo e para a base.”

Um dos principais acertos da ginástica masculina foi apostar não apenas no desenvolvimento dos atletas, mas também no aperfeiçoamento dos treinadores. Para formar o círculo virtuoso, os técnicos dos clubes passaram a acompanhar seus ginastas na seleção brasileira, com participação em competições internacionais e ciclos de treinamento no exterior. Essa constante troca de informação com a equipe permanente da seleção ajudou no aprimoramento de técnicas e no ganho de confiança para todos elevarem seu nível de dificuldade. O que se buscou evitar era o acomodamento: ninguém deveria ficar na zona de conforto. O exemplo vem das principais equipes de ginástica do mundo, que mantêm o conjunto atleta e treinador em todo um ciclo profissional. Isso serve para ninguém perder a motivação de buscar o ponto máximo da carreira.

No Brasil, dois dos medalhistas aproveitaram essa estratégia: Nory é orientado por Albino desde os 11 anos de idade e Marcos Goto começou com Zanetti em 1998, quando o especialista nas argolas tinha 9 anos. “Em 2012, o Arthur disputou várias etapas da Copa do Mundo, em diversos países, e conquistou medalha em todas. Foi nessas competições que conseguimos analisar o nível da ginástica mundial, aprender, trazer conhecimento e melhorar a cada dia”, afirma Goto. “Ele é um atleta diferente. Tudo o que conquista divide comigo, não é egoísta. Em cada entrevista, diz que o treinador faz parte de seus resultados. Ele me move a continuar a trabalhar com a ginástica.”

Uma das estratégias dos gestores da ginástica no brasil é tirar técnicos
e atletas da zona de conforto. eles são cobrados por resultados.
quem estiver desmotivado, não fará parte da seleção

Ao contrário do masculino, a ginástica feminina ainda não conseguiu encontrar esse equilíbrio para transformar talentos em medalhas. Ou melhor: abandonou a continuidade do trabalho de longo prazo que vinha sendo realizado desde o início dos anos 2000, quando o técnico ucraniano Oleg Ostapenko assumiu a seleção brasileira. Em 2008, em Pequim, a equipe feminina, com as “veteranas” Daiane dos Santos e Daniele Hypólito, então com 25 e 23 anos, respectivamente, e as novatas Laís Souza e Jade Barbosa, com 19 e 17 anos, terminou na oitava colocação na prova por equipes e dava mostras que os frutos poderiam aparecer no ciclo olímpico seguinte. Mas Ostapenko não teve seu contrato renovado e foi para a Rússia treinar a seleção juvenil. O ucraniano voltou em 2011 para coordenar o Centro de Treinamento de Ginástica de Curitiba, o Cegin. Não era a seleção feminina, mas servia como uma espécie de base de desenvolvimento. No final de 2015, por falta de recursos financeiros, ele teve seu contrato rescindido e foi embora outra vez. “Para mim, é difícil comparar porque o masculino e o feminino são bastante distintos”, disse Leonardo Finco, coordenador-geral da ginástica artística masculina na Confederação Brasileira de Ginástica (CBG), após a participação da equipe no Rio. “Mas acredito que o feminino está se renovando e vai crescer para o próximo ciclo.” Em 2016, a ginástica feminina viveu a maldição do efeito gangorra. Em Tóquio-2020, as talentosas Flavia Saraiva, Lorrane dos Santos e Rebeca Andrade, já com experiência olímpica, são esperanças de conquistar uma medalha.

A principal crítica dos profissionais que acompanham a ginástica é a preferência pelos estrangeiros para a equipe feminina. Eles trocam conhecimento e tentam aprimorar os técnicos locais, mas naturalmente impõem uma barreira que trava o pleno desenvolvimento dos brasileiros. Com Ostapenko, essa era a principal reclamação. Após a saída do ucraniano, os pedidos foram na direção de repetir a ginástica masculina, tanto para benefício dos atletas como para promoção dos treinadores. A CBG, então, buscou atender os pedidos ao trazer um nome com currículo vencedor no segundo semestre de 2013: o russo Alexander Alexandrov, responsável pela conquista de 15 medalhas olímpicas para as ginásticas da Rússia e Estados Unidos, sendo seis de ouro. Foi ele que descobriu a talentosa russa Aliya Mustafina, bicampeã das barras assimétricas no Rio e dona de um total de sete medalhas olímpicas.

Alexandrov chegou pensando em fazer um trabalho de renovação e privilegiou ginastas novatas, como Flavinha e Rebeca. Queria tempo para apresentar resultados, mas o seu contrato inicial, de apenas três anos, terminou após a Olimpíada e não foi renovado. “Os brasileiros já tiveram uma experiência de trabalhar com os nossos treinadores, mas não posso dizer que eles são ambiciosos. Ostapenko foi o treinador principal antes de mim, mas os resultados despencaram logo que ele deixou a seleção”, disse Alexandrov em entrevista a um site russo de notícias. “Fui convidado para trabalhar não apenas com os atletas, mas com os treinadores também. Isso é o que eu comecei a fazer como dois jovens que estão apenas começando.” Neste curto espaço de tempo, a língua foi um dos principais empecilhos para o pleno aproveitamento das ideias de Alexandrov, que tinha dificuldades para falar inglês.

Apesar do avanço, o brasil está distante dos melhores do mundo. Nos estados unidos, a nação mais vitoriosa, existem mil centros de ginástica de alto nível espalhados pelo país

A chance de a ginástica do Brasil repetir, em Tóquio, as três medalhas conquistadas no Rio é grande. Não só o masculino vai continuar colhendo os frutos que estão sendo cultivados nos últimos 12 anos, como o feminino terá atletas mais bem preparadas. Mas não dá para esperar o mesmo sucesso de países com tradição na modalidade, que fazem investimentos pesados para revelar campeões. Nos Estados Unidos, é utilizada a teoria dos 10%. São mais de 1.000 centros de ginástica em todo o país. Com a quantidade de atletas e treinadores, são feitas peneiras em busca da qualidade. A ideia é sempre busar os 10% melhores para, no final, ter 10 capazes de disputar o pódio e alcançar recordes. O Brasil conta com menos de cinco grandes clubes e apenas dois centros de excelência para os principais atletas. Somente com a Rio-2016 os melhores aparelhos do mundo foram adquiridos e oferecidos para treinamento. “Os clubes trabalham paralelamente ao sistema da seleção, por isso a ginástica masculina alcançou os resultados. Teve tempo para desenvolver e apromorar os atletas”, diz Blanco, do Pinheiros. “Mas o Brasil precisa abrir mais frentes de trabalho, pois praticamente só clubes de São Paulo investem. É um processo que precisa melhorar e crescer.”

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