Entrevistas

“O sucesso do passado não garante nada no futuro”, afirma Bernardinho

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Com chinelos de dedo e pisando firme, Bernardo Rocha de Rezende, 57 anos, surgiu no ginásio Leite de Castro, na Escola de Educação Física do Exército, na Urca (RJ). O local, que serve de base de treinamento do Rexona, clube que ele comanda há duas décadas, foi o escolhido para a sua primeira entrevista depois do ouro nos Jogos do Rio com a seleção masculina de vôlei. Ali, cerca de quarenta minutos depois, ele faria o mesmo de sempre – treinar um batalhão de atletas. Dono de uma prata como jogador em Los Angeles-1984 e de seis pódios olímpicos consecutivos (dois ouros, duas pratas e dois bronzes) como treinador, Bernardinho é agora uma pessoa diferente. Está mais calmo do que nunca e até aceitou simular caras e bocas durante a sessão de fotos. Na entrevista a seguir, ele falou sobre os resultados do Rio, analisou as perspectivas do esporte brasileiro diante da provável redução de investimentos de governos e patrocinadores e deu pistas sobre os próximos passos, não descartando se candidatar a um cargo público. E até filosofou. “O que fiz até agora no voleibol é suficiente para continuar a ter sucesso? Não. A única convicção que tenho é que o sucesso do passado não garante nada no futuro.”

2016_ Que lições os Jogos do Rio trouxeram para você e para o vôlei brasileiro?

Bernardinho_ A lição que fica é a nossa capacidade de realização. Nós temos condições de ser um País admirado lá fora e não ridicularizado. É possível realizar grandes eventos, ter sucesso efetivo em Jogos Olímpicos, se premissas básicas como trabalho, preparação, planejamento, treinamento, disciplina e perseverança forem cumpridas. Espero que os brasileiros tenham conseguido viver e transportar isso tudo para as suas vidas. Fala-se muito que o Brasil não atingiu a meta de ficar entre os dez primeiros na colocação geral. Nunca tivemos uma meta. Ter uma, então, já é importante. Ruim é o fato de o Brasil ainda não ter um projeto esportivo para massificar a prática com qualidade. Nosso País é feito de iniciativas isoladas.

_O Marcus Vinicius Freire, ex-superintendente do Comitê Olímpico Brasileiro, declarou que o Brasil precisa de mais 20 anos de investimentos para conseguir o que a Grã-Bretanha fez no Rio depois de implementar uma política de Estado ligada ao esporte.

_Concordo que precisamos de uma política de Estado, mas acredito que ela possa demandar menos tempo, porque somos um País mais populoso e, portanto, temos maior potencial humano. Logo depois dos Jogos de Pequim, em 2008, foi instaurada uma comissão no Senado para discutir os resultados do Brasil naquela Olimpíada. Os políticos disseram que o investimento foi muito alto para tão poucas medalhas de ouro (três), como se apenas a medalha de ouro importasse. Aí perguntei aos legisladores: se por muito tempo sequer tivemos a educação física como matéria obrigatória nas escolas, como vamos estabelecer um projeto de potência olímpica? Com situações isoladas? É preciso criar um movimento de massa e captar as pedras que são preciosas.

_O Brasil não tem falhado na capacitação de profissionais da área esportiva?

_Tão importante quanto investir em locais e estruturas para a prática esportiva é a capacitação de pessoas que cuidem do potencial atleta. Existe um projeto em Curicica (bairro do Rio) coordenado pelo professor de educação física Paulo Servo da Costa que revela talentos (como Rosângela Santos, Bárbara Leôncio e Vítor Hugo dos Santos) há mais de uma década. O local onde ele trabalha não é o ideal para o desenvolvimento esportivo, mas há um professor altamente capaz, apaixonado pelo que faz e motivado para fazer dar certo. As condições ideais para a prática do esporte nem sempre são prioridades. Prefiro que exista alguém com capacidade de realizar e paixão por fazer. A primeira questão, então, é dar estrutura para profissionais desse tipo.

_Em quais modalidades você acredita que foram plantadas sementes para o futuro?

_O que aconteceu com a canoagem é muito relevante. Os ídolos que surgiram suscitam entusiasmo, interesse. Lá em Brasília, falando para os senadores, sugeri que fossem criados projetos de canoagem em regiões ribeirinhas. Em tese, o solo nesses locais é mais fértil para a prática da canoagem. Precisamos olhar para os locais onde podemos encontrar atletas com maiores aptidões para determinado esporte, estabelecer um projeto e investir nele. Claro que há exceções que não devemos deixar de lado. O capitão da seleção de vôlei campeã olímpica em Barcelona-92 foi o Carlão, que veio do Acre, estado sem tradição no vôlei. O Brasil não pode ser a Grécia, que, na edição após os Jogos que patrocinou, despencou no desempenho. Temos que ser a Grã-Bretanha, que cresceu após realizar os Jogos.

_Como enxerga o fato de muitos atletas competirem com a pressão de que só a vitória pode mudar a história de uma modalidade e honrar o dinheiro investido?

_Ouvi bastante que o vôlei masculino não ganhava nada importante desde a vitória no Mundial de 2010. Quer dizer, a prata em Londres-2012 não significava nada. Desde 2003, a gente nunca deixou de liderar o ranking mundial. Essa geração ganhou o ouro agora e houve aquela catarse no final. Se caíssemos, seria um desastre absoluto. No Brasil, a caça às bruxas vem calcada no discurso de que se investiu muito e não se conquistou nada. Pô, não é assim. Sabe o que o (Karch) Kiraly, treinador da seleção feminina americana de vôlei, ex-jogador com três medalhas de ouro, me disse? Que gosta de jogar contra o Brasil em situações de finais, porque os nossos atletas jogam com o peso de que a conquista é como a salvação da pátria. Em outros países, um título é importante, mas a pressão não é algo como vida ou morte. Eu cheguei no Brasil depois da prata em Londres meio que pedindo perdão. Não pode ser por aí.

Jogadores da seleção lamentam a derrota para a Rússia na final de Londres-2012: “Cheguei ao Brasil depois da prata meio que pedindo perdão. Não pode ser por aí”

Jogadores da seleção lamentam a derrota para a Rússia na final de Londres-2012: “Cheguei ao Brasil depois da prata meio que pedindo perdão. Não pode ser por aí”

_É a favor da importação de treinadores para comandar modalidades em que o País não tem tradição?

_A vinda de grandes profissionais de fora é positiva. O mundo é globalizado. Tive reuniões com o espanhol Jesus (Morlán, da canoagem), o Morten (Soubak, do handebol), que são referências, para debater estratégias e falar como encarar a pressão de disputar os Jogos em casa. Um dia antes da final olímpica, o Jesus veio assistir ao nosso treino. Fiz questão que ele falasse com a equipe. O Jesus é um gênio, fantástico. Ter essas pessoas entre nós é somar excelência, conhecimento. Não podemos nos privar dessa situação. Eu quero estar próximo desses caras, por favor.

“O kiraly, técnico dos eua, me disse que gosta de jogar com
o brasil em finais porque os nossos atletas jogam com
o peso de que a conquista é a salvação da pátria”

_Que futuro enxerga para o esporte brasileiro com a possibilidade de menos dinheiro das leis de incentivo?

_Os recursos não serão abundantes como ocorreu até os Jogos. Temos, então, que ser mais eficientes, otimizar os trabalhos. É preciso usar os recursos com inteligência. Aqui no Rexona, não temos jogadoras top. Irei, então, trabalhar com atletas mais jovens. Procuramos parcerias com instituições de ensino para oferecer a possibilidades de desenvolvimento humano. Oferecer não só dinheiro, mas cursos, programas, com foco no futuro da vida delas. As confederações também terão que rever os seus planos com o fim da Olimpíada.

_O Brasil forma bons gestores esportivos?

_Não. As escolas de educação física têm que se preocupar com a formação de treinadores esportivos e não só de professores. As confederações precisam investir em pessoas. Gente é o que faz a diferença. Um grande ginásio ou grande profissional? O profissional é sempre prioridade número um, porque ele é fundamental para um salto de qualidade. Por outro lado, temos um problema de sistema eleitoral nas confederações. Só presidentes de federações podem se candidatar a presidente de confederação. Atletas olímpicos que tenham alguma contribuição efetiva para o esporte devem ter voz ativa em suas modalidades. Não podem ser marginalizados.

_Fica parecendo que não há vontade política para investir em pessoas.

_Isso tem que mudar para que, inclusive, possa haver renovação. Para tanto, é preciso uma alteração no colégio eleitoral. Como é possível o José Roberto Guimarães, três vezes campeão olímpico, não ter a opção de participar de uma eleição de um presidente ou da tomada de decisões relativas ao vôlei? Eu mesmo, que estou há quase dezesseis anos à frente da seleção masculina, me questiono se devo sair. O que fiz até agora no voleibol é suficiente para continuar a ter sucesso? Não. A única convicção que eu tenho ao longo desses anos todos é que o sucesso do passado não garante nada no futuro. Ele traz cada vez mais responsabilidades e expectativas sobre nós mesmos.

_Quais os motivos o fazem pensar em, talvez, deixar de ser treinador da seleção de vôlei?

_Não sei se vou continuar na seleção, mas sigo trabalhando porque ainda sou treinador, colocando as condições de trabalhos que acho necessárias. Mas eu tenho uma característica muito ruim, que me faz sofrer demais. Eu não fico alheio quando vejo coisas erradas ou quando enxergo que posso dar a minha contribuição. Eu gostaria de contribuir, sem nenhuma pretensão, para a nossa cidade, para o nosso estado, para o nosso País. Há muitas outras coisas que me seduzem para contribuir mais.

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_Na vida pública?

_Por que não? Não existem salvadores da pátria, mas pessoas que, juntas, podem avançar, realizar. Pessoalmente, então, eu me sinto responsável pelas coisas. Mas existe um preço muito alto a se pagar por todo esse envolvimento.

_Por exemplo?

_Até o nono ano de idade, uma das minhas filhas, a Júlia, dizia que eu nunca tinha ido a uma festa junina dela. A Vitória, de seis anos, não sabe ainda, mas eu não vi o nascimento dela. Eu queria fazer outras coisas para as quais não encontro tempo. Só que não quero estar na seleção mais ou menos. Aí me questiono: será que sou ainda a pessoa ideal para continuar no comando da seleção? Não seria bom ver outras pessoas contribuírem com ela? O meu dilema é o fato de que eu tenho uma paixão, eu não sei viver sem ela (o vôlei), mas ao mesmo tempo enxergo outras necessidades pessoais e outros desafios.

_Na esfera do vôlei nacional, você e o Rexona dominam a cena feminina. Por que é assim?

_Estou no clube há 20 anos. Conquistamos 11 títulos nacionais e somos os atuais tetracampeões da Superliga. A receita é escolher as pessoas certas, trabalhar em equipe e preservar valores com os quais trabalhamos. Aqui, não há transgressões. Vivo negociando horários, treinos, mas não se negociam valores e princípios. A Natália foi eleita a melhor jogadora da Superliga da última temporada, mas sabia que havia outra que fora melhor do que ela. No palanque, ela recebeu o troféu e o entregou à Monique (também do Rexona). Não vamos ao mercado vender apenas resultados e exposição de marca. O que queremos é transformar pessoas com aquilo que fazemos aqui.

_Por que o Rexona não tem equipe de base?

_Há clubes, aqui no Rio, como Tijuca, Fluminense, Flamengo, que fazem esse trabalho. Entendo que eu, de alguma forma, iria desestimular o processo dos outros clubes se eu fizesse um time juvenil no Rexona. Porque a maioria das meninas ficam pensando que o Bernardinho é isso e aquilo e iriam querer vir para cá. Sendo assim, mantemos no Rexona projetos sociais com crianças no Paraná e aqui no Rio, ou seja, continuamos alimentando o processo.

_Você conquistou medalhas em seis edições olímpicas de modo consecutivo. Se contarmos a sua prata como jogador, em Los Angeles-84, serão sete no total. Desde 1996, você não sabe o que é participar de uma Olimpíada sem medalhar. O que essa marca representa?

_Tenho uma medalha e seis réplicas. A minha prata de 1984 estaria jogada em uma gaveta se a Fernanda (Venturini, esposa de Bernardinho) não tivesse preparado um espaço para pendurá-la junto com outras medalhas. As medalhas são bacanas, interessantes, compõem uma história legal, mas, sinceramente, eu não me alimento disso. Eu sigo o mesmo, com minhas limitações e algumas virtudes, trabalhando e preocupado com a sequência do desenvolvimento. Por exemplo, essa geração campeã olímpica agora precisava que eu exercesse a liderança de maneira diferente em relação aos anos anteriores.

_Você parecia menos estressado no Rio. Essa mudança de comportamento tem a ver com o tumor maligno no rim direito que você retirou em 2014?

_Não. O estresse maior que tive foi em relação aos problemas da federação internacional de vôlei, que me puniu (ele foi suspenso por dez jogos e condenado a pagar uma multa de US$ 2 mil por criticar o regulamento do Mundial da Polônia, realizado em dezembro de 2014) de forma injusta por questões de retaliação pessoal. Esse tipo de coisa, sim, é um estresse nocivo. O de jogo, pelo contrário, é rejuvenescedor.

“Até o nono ano de idade, uma de milhas filhas, a júlia, dizia que eu nunca tinha
ido a uma festa junina dela. também não vi o nascimento da vitória, de 6 anos”

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