Paralímpicos

O cego que é craque da seleção brasileira de futebol de 5

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Ricardo Steinmetz Alves, o Ricardinho, quis ser jogador de futebol desde sempre, mas aos seis anos uma fatalidade quase colocou tudo a perder. Por uma razão até hoje não identificada, ele deslocou a retina. Cinco cirurgias e dois anos depois, ficou completamente cego. Durante um bom tempo, a família achou que praticar esporte seria impossível. A falta de esperança resistiu até Ricardinho completar 10 anos, quando descobriu, na escola, que havia um caminho a seguir. “Experimentei natação e atletismo, mas não gostava de nada disso”, diz. “O futebol era mesmo a minha paixão. Quando eu soube que, mesmo sem a visão, poderia jogar de novo, foi como se o sonho de infância tivesse renascido.”

O sonho veio na forma do Futebol de 5, modalidade paralímpica para pessoas com cegueira total. Foi ali que Ricardinho se encontrou. Aos 15, já estava na seleção brasileira principal. No primeiro jogo pelo Brasil, marcou seis gols contra a Bolívia, se tornando artilheiro da Copa América de 2006. Desde então, nunca mais deixou o posto de titular da seleção. Aos 17 anos, passou a ser o mais jovem atleta a ganhar o título de melhor jogador do mundo. Agora, aos 27 coleciona dois títulos Paralímpicos (Pequim-2008 e Londres-2012), dois mundiais (Inglaterra-2010 e Japão-2014), três Parapan-Americanos (Rio-2007, Guadalajara-2011 e Toronto-2015) e três Copas América (São Paulo-2006, Argentina-2009 e Argentina-2013). Graças principalmente ao talento de Ricardinho, o Brasil não perde uma competição oficial há 8 anos.

Ao contrário do que muita gente imagina, o futebol para cegos exige habilidade dos atletas. O jogo é rápido e intenso. Como no futsal, a quadra tem 40 metros de comprimento por 20 metros de largura. A bola tem um guizo para que os quatro jogadores de linha de cada equipe se orientem pelo som. Eles também contam com os gritos do técnico, do goleiro (que não tem deficiência visual) e de um “chamador”, profissional que fica atrás do gol com a missão de passar instruções. Para a bola não sair pelas laterais, a quadra é cercada. Sempre que parte em direção ao ataque, o jogador é obrigado a dizer a palavra espanhola “voy”, anunciando assim, para os colegas de time e rivais, em que lugar da quadra ele está. Parece confuso, mas tudo funciona de forma harmoniosa.

Acima, as chuteiras gastas de um atleta da seleção

Acima, as chuteiras gastas de um atleta da seleção

Ricardinho já praticava Futebol de 5 quando o esporte estreou no programa Paralímpico, em Atenas-2004 – o Brasil foi o campeão. Sua primeira participação no maior evento esportivo do planeta foi em Pequim-2008. “A final foi emocionante”, diz. “O Brasil estava perdendo de 1 a 0 para a China e empatamos com um gol marcado por mim. No fim, viramos quando faltavam trinta segundos para terminar a partida.” Até hoje, só uma seleção nacional subiu ao pódio em todas as edições da competição: a brasileira. Continuar invicta requer um trabalho árduo. Para manter a supremacia em casa, os atletas realizam, durante dez dias seguidos a cada mês, uma clínica intensiva de treinamentos no Rio de Janeiro. “Isso estimula o entrosamento”, afirma o técnico da seleção, o ex-goleiro Fábio Luíz Ribeiro de Vasconcelos.

A partir de agosto, o time se concentra de forma definitiva, até a estreia na Paralimpíada, em setembro. Outro trunfo do time está no fato de contar com a ajuda de dois tricampeões paralímpicos atuando na linha: os jogadores paraibanos Marcos José Alves Felipe e Severino Gabriel da Silva, além do bicampeão Damião Robson de Souza Ramos e do próprio Ricardinho. “É um grupo experiente e homogêneo, que já conhece o sabor de ser campeão e apresenta muita cumplicidade”, diz o técnico.

Ricardinho: “Quem ganha muito começa a relaxar, mas nós tentamos nos motivar sempre”

Ricardinho: “Quem ganha muito começa a relaxar, mas nós tentamos nos
motivar sempre”

Sustentar a hegemonia também é uma preocupação da Confederação Brasileira de Desportos de Deficientes Visuais, a CBDV, entidade que gere o Futebol de 5 e outras modalidades adaptadas para cego. Segundo o presidente da CBDV, Sandro Leina, a maior dificuldade é a escassez de investimentos. “Hoje temos R$ 2,2 milhões da Lei Agnelo/Piva e R$ 1,4 milhão do patrocínio da Caixa Loterias, mas os recursos ainda são insuficientes”, diz o dirigente, destacando que a falta de dinheiro afeta até a distribuição de materiais básicos para o esporte, como bolas. “Outros subsídios governamentais seriam importantes, assim como a existência de competições por faixa etária, para possibilitar o desenvolvimento gradual dos atletas.” Atualmente, a CBDV possui 76 associações filiadas que oferecem o Futebol de 5 em sua programação de atividades – desse número, apenas 23 participaram das competições oficiais da CBDV ao longo do ano de 2015, com aproximadamente 220 atletas.

Se depender do esforço de Ricardinho, a invencibilidade será mantida na Paralimpíada do Rio. “Já estamos respirando a competição”, diz o craque, acostumado a trabalhar sob pressão. “Meu pai me levava na rédea curta, sempre cobrando muito. Mas é só isso que leva a pessoa a corrigir os erros.” Outro desafio é evitar o salto alto. “Quem ganha muito, começa a relaxar, mas nós tentamos nos motivar sempre.” É com esse espírito que Ricardinho esperar continuar, ainda por muito tempo, no topo do esporte mundial. “Meu trabalho está sendo reconhecido.”

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