Reportagem

Uma questão de imagem

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A o vermos que nossa cidade estava sediando o maior evento do mundo, é claro que mexe com o nosso orgulho. Ficou esse sentimento de que somos capazes de fazer um grande evento e que, mesmo com todas as dificuldades que passamos no momento, não perdemos a nossa alegria e o nosso jeito de receber maravilhosamente bem quem nos visita. O Rio mostrou o seu lado miscigenado. Somos uma cidade de múltiplas culturas que vai do samba ao funk, passando pelo street, cult, pop, rap. Sabemos que o mundo estava com os olhos voltados para essa identidade. Isso é maravilhoso. Os brasileiros se orgulharam de os Jogos terem acontecido aqui. Mas não vejo que tenham mudado seu olhar sobre o Rio. Sabemos de nossas dificuldades e o que se passa nas grandes capitais do País. Acredito que, para os brasileiros, o Rio continua sendo uma cidade linda, com um povo alegre e hospitaleiro, mas ainda com problemas sociais e de segurança.

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Não há maior evento no mundo do que uma Olimpíada, nem uma reunião de 100 chefes de Estado, o que o Rio também já fez. Pense nas milhares de pequenas providências que precisam ser tomadas para que as competições se realizem – e, isso, desde muito antes que elas se realizem. Pelo visto, tudo andou perfeitamente, a contento. O Rio mostrou que não é só mulher, caipirinha, carnaval e crime. Que é uma metrópole à beira-mar, aberta à festa e à alegria, mas também uma cidade séria, que sabe fazer as coisas. Muitos brasileiros têm em relação ao Rio o mesmo preconceito que alguns estrangeiros, além de uma tremenda dor-de-cotovelo. Mas, ao chegar aqui, tanto para a Olimpíada quanto para a Paraolimpíada – recuso-me a falar “Paralimpíada”, que não existe –, descobriram a cidade e se maravilharam. As festas de abertura e de encerramento, claro, foram os pontos altos. Assim como a presença e participação do público, o folclore das torcidas. No caso da Paraolimpíada, tudo isso e mais a beleza das competições e o fato de as nossas terem atraído o segundo maior público de todos os tempos, maior até do que em Pequim, em 2008.

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O Rio mostrou que tem uma diversidade incrível de expressões artísticas, que se integram e convivem de forma muito rica. Mostramos uma cidade fora de clichês, um Rio para além do que o estrangeiro conhece. Uma metrópole viva, contemporânea e totalmente à vontade com os visitantes. Acho que os Jogos trouxeram uma grande sensação de orgulho para a cidade, que se comportou muito bem, mas também para o Brasil. O brasileiro tirou a autoestima do armário e vestiu o verde e amarelo com muita naturalidade e alegria. Começou já com a festa de abertura. Ali ficou muito clara a nossa capacidade de fazer. Depois os transportes funcionaram muito bem. No meu ponto de vista, que também estive em Londres, funcionaram ainda melhor do que lá. Tinha um clima bacana e emocionante pairando no ar da cidade. Esse ambiente foi crescendo durante os Jogos e contagiando até aqueles que não gostam de esporte, devolvendo, em certo sentido, o jeito acolhedor do carioca e a beleza de se morar nessa cidade.

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Acho que houve uma redescoberta do Rio pelos próprios brasileiros. Vi declarações de turistas surpresos com a hospitalidade com que foram tratados e, principalmente, pela tranquilidade que encontraram aqui nas ruas. A Olimpíada não resolveu todos os problemas da cidade, mas mostrou que a cidade não é só problemas. Sem desmerecer as benfeitorias físicas, os novos meios de transporte, os novos espaços públicos de lazer, os novos museus, o principal legado foi mesmo psicológico, emocional. Num momento em que tudo, ou quase tudo, estava dando errado na cidade, mostrar que éramos capazes de realizar um evento grandioso como a Olimpíada foi um afago no ego dos cariocas que, como se sabe, é do tamanho do seu narcisismo. Do ponto de vista da identidade cultural, os Jogos mostraram ao mundo que o Rio não era a capital da Zica e de prováveis atos terroristas, como parte da imprensa estrangeira previa e anunciava. Justiça seja feita, essa mesma imprensa foi a primeira a fazer o mea-culpa e exaltar a nossa capacidade de organização. O ponto baixo foi a torcida dos pessimistas, que queriam que a Olimpíada desse errado. O ponto alto foi a desmoralização dessa visão catastrófica.

“Num momento em que tudo, ou quase tudo, estava dando errado na cidade, mostrar que éramos capazes de realizar um evento grandioso como a olimpíada foi um afago no ego dos cariocas”

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imagem do Rio de Janeiro estava muito distorcida no exterior. Diziam que a Olimpíada seria um horror, ia ter até doença. Hoje, a imagem é outra. No período dos Jogos, passei alguns dias nos Estados Unidos. Se antes era um bombardeio enorme, durante a Olimpíada era o Rio na televisão o dia inteiro, só elogios à cidade, à organização. Isso melhora nossa autoestima. Não só do carioca, mas do brasileiro também. Se não estivéssemos em um momento político tão chato, estaríamos fazendo festa e comemorando até agora. Sabe, mesmo as pessoas do Estado do Rio de Janeiro não queriam ir à capital, estavam com medo. Ontem mesmo estava na esquina conversando com um pessoal de uma outra cidade, todo mundo falando que foi bonito, uma beleza. Assisti a alguns jogos, vi Brasil e Alemanha, a final do futebol. Achei tudo muito bom. Deixamos uma marca linda, mostramos que sabemos fazer festa, que sabemos organizar um evento. Fizemos a Copa do Mundo. Aliás, organizamos o Carnaval. Então o resto é fácil. O único problema é o Brasil, que está muito desorganizado.

“No período dos jogos, passei alguns dias nos estados unidos. Se antes era um bombardeio enorme, durante a olimpíada era o rio na televisão o dia inteiro e só com elogios à cidade”

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O mundo viu uma cidade fotogênica e um povo acolhedor. Acho que tinha muita gente duvidando que o Rio estaria preparado. A mídia internacional principalmente. Se falava muito da água da baía de Guanabara, da violência. Por aqui também se criticou bastante, escutamos muito sobre os problemas das obras e se ficariam prontas a tempo. Foi bom nos sairmos bem, apesar de todos os problemas da cidade e do País. Um dos pontos altos foram os cariocas. A recepção foi muito boa, sabemos receber os gringos bem. De forma geral, as paisagens foram muito citadas pela beleza. Assistir a alguns esportes, como o ciclismo passando por toda a cidade, foi muito bonito. Também fiquei feliz de ver os brasileiros envolvidos com diferentes esportes. O esporte é inspirador e espero que a overdose de modalidades e histórias sobre atletas e superações possam inspirar as pessoas. E que possamos, cada vez mais, acompanhar, desenvolver e investir em esportes além do futebol e do vôlei.